Poesia Portuguesa (17) – Al Berto

by manuel margarido

é tarde, meu amor


é tarde meu amor

estou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das marés, na saliva de meu corpo sofrido

agora, tuas máquinas trituraram-me, cospem-me, interrompem o sono

habito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido dos corais…

a solidão tem dias mais cruéis


tentei ser teu, amar-te e amar o falso ouro… quis ser grande e morrer contigo

enfeitar-me com as tuas luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda… cantar-te os gestos com

[ternura

mas não


águas, águas inquinadas pulsando dentro do meu corpo, como um peixe ferido, louco

em mim a lama… e o visco inocente dos teus náufragos sem nome-de-rua, nem

[estátua-de-jardim-público

aceito o desafio do teu desdém


na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição

apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te cantam

Al Berto, in, O Medo (Trabalho poético, 1974 – 1990) , Livro Quarto – Trabalhos do olhar, Assírio & Alvim, Lisboa, 1991

© Paulo Madeira, Olhares, fotografia online

© Paulo Madeira, Olhares, fotografia online

Advertisements