José Eduardo Agualusa – 3 poemas

by manuel margarido

Em 1986 a Assírio & Alvim dava à estampa a terceira edição do seu Anuário de poesia – Autores não publicados. Creio que, após este número, a iniciativa deixou de ter continuidade mas nele encontramos, com alguma surpresa, três poemas de um jovem angolano então com 25 anos, que se viria a notabilizar como romancista e novelista: José Eduardo Agualusa (Huambo, 1960). É certo que, em 1990, Agualusa reúne, em Coração dos Bosques – Poesia 1980-1990, o seu trabalho poético de uma década. Mas é bem possível que tenham sido estes os primeiros poemas do autor a conhecerem edição (agradeço qualquer informação que corrija os dados de que disponho). Observação final: o júri teve de seleccionar os autores que considerou mais válidos (“com certo dom de expressão ou conhecimento da tradição multímoda dos poetas”) num universo de 956 propostos. Era composto, o júri, por Fiama Hasse Pais Brandão, José Agostinho Baptista e Miguel Serras Pereira. Era um ‘Anuário’ a sério.

(Nota: o referido volume foi comprado, há cerca de um mês, numa livraria do Chiado, em Lisboa (uma das mais antigas e pequenas, para que conste). Estava cuidadosamente ‘soterrado’ sob uma pilha de outro livros, dentro de um caixote de cartão. Preço: 1 (um) euro. Não sei o que pensar disto.)


TEMPO DAS CHUVAS

Antes que venham as primeiras chuvas

acender

Amarelas flores entre os rochedos

E o céu se torne móvel de compridos pássaros

E todo o chão se cubra do verde novo

Do capim


Saberás pelo vento que chegaste ao fim.


DO TEMPO E DA MORTE EM PUNGO ANDONGO

Às vezes penso naquele poente que eu não vi

em Pungo Andongo

E no tempo (esse estranho mito)

Que não fixou os corpos, nem os gritos

Nem o sangue do sol nesse preciso instante.

Às vezes penso em Pungo Andongo

E em quantas vezes se repetirá o rito

O ritual da morte (outro estranho mito)

Tão lúcido e tão breve nesse preciso instante.


NETO BISNETO DE JAGAS

Neto bisneto de Jagas

Tenho no sangue o lume do sangue

Das noites longuíssimas de espanto e temporais

Das noites eriçadas de presságios e punhais

Tenho no sangue a Morte

Neste sangue

Onde dormitam calados

os chacais.

José Eduardo Agualusa, in Anuário de Poesia – Autores não publicados, pp. 64 – 66, Assírio & Alvim, Lisboa, 1986.

© Luis Carlos Pinheiro Pires, olhares, fotografia online

© Luís Carlos Pinheiro Pires, olhares, fotografia online