Poesia Portuguesa (XV) – Joaquim Manuel Magalhães

by manuel margarido

Sem qualquer espécie de pudor, antes humildade ante a síntese consistente e mais que suficiente para apresentar o autor a quem dele menos conheça, transcrevo a nota biográfica de Joaquim Manuel Magalhães, inserta no excelente blogue Insónia, em 6 de Setembro de 2005, da autoria de Henrique Fialho, (a quem dou conhecimento desta transcrição e a quem devo muitas leituras, em qualidade e quantidade no seu outro blogue, Volumen) “Joaquim Manuel Magalhães nasceu em 1945 no Peso da Régua. Poeta, ensaísta, crítico de poesia e tradutor, doutorou-se em Literatura Inglesa, pela Universidade de Lisboa, com a tese «Consequência da Literatura e do Real na Poesia de Dylan Thomas» (1980). Professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, rege seminários de Poesia Contemporânea. Os primeiros poemas apareceram em 1974, num Envelope concebido pelo pintor António Palolo. Também participou na elaboração do Cartucho (1976). Mais tarde, Alguns Livros Reunidos (1987) colige grande parte da obra publicada até então. Essa recolha inclui os poemas inaugurais, bem como os de Consequência do Lugar, Dos Enigmas, Vestígios, Pelos Caminhos da Manhã, António Palolo, Uma Exposição (este com João Miguel Fernandes Jorge e Jorge Molder) e Alguns Antecedentes Mitológicos, colectâneas que desaparecem como obras autónomas depois da ampla operação de rasura a que foram submetidas. De fora ficam dois títulos emblemáticos: Os Dias, Pequenos Charcos (1981) e a 2ª edição de Segredos, Sebes, Aluviões (1985), muito diferente da versão de 1981. Considerado o mais influente crítico da sua geração, a sua actividade ensaística faz a síntese do ethos puritano e da pulsão libertária. É autor de uma extensa antologia de poesia espanhola (Poesia Espanhola de Agora, que, em dois volumes, reune sessenta e oito autores nascidos entre 1942 e 1976). Também traduziu Kavafis, Seferis e Ana Akhmatova, bem como inúmeros poetas de língua inglesa. De 1968 a 1970 e de 1975 a 1976, apresentou na RTP um programa semanal de sua autoria, sobre poesia, intitulado «Os Homens, Os Livros e As Coisas».

O poema que escolho pertence a “uma luz com um toldo vermelho” (1990) – integrando o corpo da sua segunda parte, Os Poços – livro duplamente significativo para mim, já que foi por ele que “entrei” na obra de Joaquim Manuel Magalhães, imediatamente após a leitura de “Um Pouco da Morte“, obra de crítica literária que transformou, de modo irremediável, a forma como passei a ler poesia.


“Deita-te comigo nesta cama de pedra.”

Canta de novo esse convite, tantos anos passados,

de novo nas ruínas da rua do emprego

onde fiquei de te esperar.


Está deitado aqui o corpo que recorda, está deitado.

Os ornamentos de metal, a música portátil,

o tambor de uma criança na rua,

o risco amarelo da coberta.


O braço que descai debaixo do pescoço

o coração cujo ritmo decresce

os olhos em que dói a luz do candeeiro

os pés à procura da lã do cobertor

o esperma que seca sobre o peito

o sono entrecortado da respiração.


Trocas de luz errante, ervas sem nome

que me dizias serem feno grego, junça, melodia.

Joaquim Manuel Magalhães, in ‘uma luz com um toldo vermelho’, p. 35, colecção forma nº 24, Editorial Presença, Lisboa, 1990.

© Pedro Polónio, Olhares, fotografia online

© Pedro Polónio, Olhares, fotografia online