As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Dezembro, 2008

Fotografia do Dia (XXII) – Isabel II

Quarta-feira, com a pompa e circunstância seculares, Isabel II levou à Sessão de Abertura do Parlamento o Discurso da Coroa, previamente redigido por Gordon Brown, que ela mesma leu, claro, como sempre leu os discursos dos seus primeiros-ministros. A economia dominou a prédica. Com uma extraordinária precisão democrática repetiu-se o ritual: o líder da oposição, o tory David Cameron (um rapaz decidido) ‘malhou’ fortemente o discurso, aproveitando, aliás para explorar até ao tutano o escândalo do momento: a prisão do deputado conservador Damian Green, e busca ao seu gabinete no Parlamento por parte da polícia, sem mandado. Alegadamente por fugas de informação que comprometem a ‘segurança nacional’. Brown (com um ar terrivelmente cansado) defendeu-se como um velho leão e seria um osso muito duro de roer se o Reino Unido não estivesse economicamente de gatas.

'Desta vez não vou dois passos atrás dela...'

'Desta vez não vou dois passos atrás dela...'

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Citações (1)

O PSD E A QUADRATURA

“Rui Rio vai estar em directo com os “Quadraturas” na Figueira da Foz. Rio é de poucas falas e talvez por isso a “Quadratura” consiga escapar ao seu sensaborão “círculo”. Seria interessante saber se Rio, por exemplo, ainda é o “número dois” de Ferreira Leite. E se Ferreira Leite ainda é o “número um” do PSD.”

Do João Gonçalves, autor do blogue Portugal dos Pequeninos, com quem não chego a dialogar hoje no Rádio Clube Português, por ‘contingências tecnológicas’. Um prazer que se perdeu, uma informação que lhe presto:  Rui Rio falou pouco. Pacheco estava literal e metaforicamente em casa. Portanto, muito largado. Sim, a coisa foi sensaborona, apesar, ou por causa, da mudança de cenário e de interlocutor. Sim, Ferreira Leite ainda é “número um” do PSD, apesar das sondagens de hoje. O ainda é cada vez mais ainda.

mesa redonda, gente quadrada, problemas bicudos

'mesa redonda, problemas quadrados, gente bicuda'

Poesia Portuguesa (XIII) – Jorge de Sena

Aqui se publica um poema bastante conhecido de Jorge de Sena, notável pela intrincada malha em que é tecido. Acompanha-o um comentário de Eduardo Prado Coelho.


AMOR

Amor, amor, amor, como não amam

os que de amor o amor de amar não sabem

como não amam se de amor não pensam

os que amar o amor de amar não gozam.

Amor, amor, nenhum amor, nenhum

em vez do sempre amar que o gesto prende

o olhar ao corpo que perpassa amante

e não será de amor se outro não for

que novamente passe como amor que é novo.

Não se ama o que se tem nem se deseja

o que não temos nesse amor que amamos

mas só amamos quando amamos ao acto

em que de amor o amor de amar se cumpre.

Amor, amor, nem antes, nem depois,

amor que não possui, amor que não se dá,

amor que dura apenas sem palavras tudo

o que no sexo é o sexo só por si amado.

Amor de amor de amar de amor tranquilamente

o oleoso repetir das carnes que se roçam

até ao instante em que paradas tremem

de ansioso terminar o amor que recomeça.

Amor, amor, amor, como não amam

os que de amar o amor de amar não amam.

Jorge de Sena, in Peregrinatio ad loca infecta, Portugália, Lisboa, 1969 (poema de 1965)

Henri Matisse - 'Le bonheur de vivre' (1905-6)

Henri Matisse - 'Le bonheur de vivre' (1905-6)

“(…) Se tentarmos analisar, mesmo que fugazmente, a temática do amor na obra poética de Sena, teremos de começar por reconhecer que ela é dominante, mas muitas vezes em formas pouco ortodoxas. De certo modo, Sena procurou evitar entrar na reflexividade interminável do processo amoroso, reflexividade que no entanto o instinto dialético da sua sintaxe desenvolveu por vezes até à exaustão.

Consideremos o poema precisamente intitulado «Amor», escrito em 1965, e incluído no livro ‘Peregrinatio ad loca infecta‘: […] Vemos aqui, nesta cascata verbal enredadamente interminável, que o espaço amoroso se declina entre o pensamento do amor, o amor de amar, e o acto sem o qual esse pensamento não chega ao saber do amor, que é um saber feito. Mas este espaço arqueia-se numa tensão essencial que prescinde da estabilização de um sujeito e de um objecto: é apenas o amor como infinito pessoalmodulado em todas as suas variações possíveis. Porque mais do que o amor de uma outra pessoa o amor é amor de um desejo (…).”

Eduardo Prado Coelho, in ‘O nó dos tempos’, ensaio incluido na obra colectiva Jorge de Sena em rotas Entrecruzadas, Org. Gilda Santos, Edições Cosmos, 1999.

Pérolas (5)

“Foi uma verdadeira revolta contra o estabelecimento”

-tradução no documentário A Geração de 68, Canal Odisseia, 05.08.2008. Legendagem e locução: Santa Claus Audiovisual –

'bora abrir um 'stablishment', amori?

'bora abrir um 'establishment', amori?'

Poesia Portuguesa (XII) – João Miguel Fernandes Jorge

Sobre Sob Voz, o primeiro livro de João Miguel Fernandes Jorge (Bombarral, 1947), é o título da notável primeira obra de um autor que se tornaria (com António Franco Alexandre, Luís Miguel Nava, Joaquim Manuel Magalhães, primordialmente) uma das vozes poéticas fundamentais na ruptura geracional – estética, ética, programática – introduzida na poesia portuguesa na década de setenta. Sobre o livro, leia-se, pelo confronto com a sua novidade e acto fundador, a crítica de Luís Miranda da Rocha na Colóquio/Letras nº. 8, de Julho de 1972. Essa mesmo, a Colóquio/Letras que nos vão tirar. Sobre o poema, leia-se a deliciosa quase detectivesca, perplexa e maravilhada análise textual de João Luís Barreto Magalhães, em entrada datada de Janeiro de 2006, no blogue Poesia & Lda., que mantém com Jorge Sousa Braga, e que só por inépcia minha ainda não topara. Dado não possuir o livro – embora a bibliografia de Fernandes Jorge habite abundante sob sobre as prateleiras da ‘minha’ poesia – é deste blogue que se extrai um belo e enigmático poema de João Miguel Fernandes Jorge.

22

Quero falar de Amadeu,
talvez nascido a 11 ou 12
de novembro. Era 1919 e
tinha já então muito de

velho. As mulheres gostaram
dele (seduzindo-o na sua
própria vida de cigano) e
do outro lado da montanha

percebiam como sabia de
crisântemos, azuis (do
mesmo azul das dunas).

Ainda o visitam, mas o
tempo de Amadeu é agora
uma ilha perdida de Bocklin.

João Miguel Fernandes Jorge, in ‘’Sobre Sob Voz’, Colecção Círculo de Poesia, Moraes Editora, Lisboa, 1971.

'A Ilha dos Mortos' (terceira versão) - Arnold Boecklin

'A Ilha dos Mortos' (terceira versão) - Arnold Boecklin

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Fotografia do Dia (XXI) – Obama e a Secretary of State

'whispering & hoping'

'whispering hope'

The body language was friendly and appropriate, if not necessarily personal. Standing behind Mr. Obama during his remarks, Mrs. Clinton nodded as he spoke of the nation’s challenges; after the event ended, the two walked out of the room arm in arm, her hand gently patting his back.” – in The New York Times, ed. 02.01.2008

'watch your back'

'watch your back'

Não serão tanto as questões de política externa que os podem dividir. Serão os ressentimentos, a memória, a agenda de cada um, o cuidadoso estabelecimento de uma linha que dê a Clinton a visibilidade que deseja (e precisa) sem colidir com a liderança de Obama. Não podia haver melhor escolha para Secretary of State, conceda-se. Mas também não podia ser mais perigosa. Este é o primeiro desafio de Obama, ao chamar Clinton: a intimidade do inner circle. Por isso, mais que as palavras, Obama aproximou os corpos.

Novos Poetas (XXVII) – Sara F. Costa

No segundo número da criatura, um conjunto de seis poemas de Sara F. Costa, já publicada na primeira revista. No primeiro número, a autora oscilava entre o lirismo de verso fluído, como no poema ‘Contemplação‘: “sento-me na margem da tua infância/e recupero o gosto pelo esquecimento[…]” e uma progressiva deriva para uma focalização na presença do risco, do corte, onde o corpo é matéria poética sempre em fragilidade, a partir de si mesmo e com o que o rodeia, onde a fala se revela inútil. Nos seis poemas agora apresentados é este o território poético que se acentua.


rasgo a fala pelas suas fendas.

bebo o fumo tardio tardio de um domingo

menos espesso que os outros.

procuro uma noite comprida

onde possa afogar todas as sombras

e escaldar o inconsciente,

para lá da dolorosa superfície

das coisas.

as horas tremem.

mas estou parada

e o eixo à volta do qual

se inflama a rotação da linguagem

é demasiado curto.


Sara F. Costa, in revista Índice nº 2, p. 156, Lisboa, 2008

© Mariah, Olhares, Fotografia online

© Mariah, Olhares, Fotografia online

Pérolas (4)

(delírios dos dias febris)

“As repúblicas são contranatura. Excepto aquelas repúblicas muito tradicionais, como a Suíça, ou os EUA, onde, de algum modo, elegem um rei.”

– D. Duarte Nuno de Bragança, in Público (P2), 01.12.2008 –

'Sou tradicional na Suiça. Serei elegivel?'

‘Sua Majestade, El-Rei da Suíça (eleito)’

Suazo, o mais popular do mundo

(aviso à navegação: quem quiser ver, neste blogue, um post decente sobre o Cristiano Ronaldo, clique aqui)

No Record online (sim, confesso, acedi ao Record online!) noticia-se: Suazo é o mais popular do Mundo. Suazo… pois… pela fotografia é um jogador de futebol. Do Benfica. Pesquisando um pouco mais… é hondurenho. Já jogou em Itália. Já marcou dois ou três golos para o campeonato. Em 10 jogos. Está tudo explicado!

Daria vontade de rir, se não desse vontade de pensar.

A questão nem está na notícia, que apenas difunde os resultados de uma votação online organizada por uma críptica Federação Internacional de Estatísticas e História do Futebol (IFFHS), a qual, como sublinha o Record, é “uma entidade reconhecida pela FIFA” (Ah, assim a coisa fia mais fino!). O problema está no tratamento que é dado à notícia, ou melhor, a falta de tratamento. É que uma votação desta natureza não permite, em circunstância alguma, retirar qualquer espécie de conclusão decente. Ou, se dela se extrair inferência, a mesma deverá ser, obrigatoriamente contextualizada, relativizando (no mínimo) a coisa.

Mas o Record é um jornal desportivo. Português. Precisa de vender. Suazo, esse ídolo das massas, joga no Benfica (que deve estar a fazer fortunas a nível global com o merchandising desta super-estrela galáctica). É triste que sejam os leitores, na caixa de comentários à ‘notícia’, a extrairem as ilações que os jornalistas deveriam ter retirado, nem que fosse, como mandam as regras, em nota de opinião.

Eu também tenho um comentário a fazer: vou organizar uma votação online aqui no prédio para saber quem é o vizinho mais popular. Excluíndo a estimada Dª. Engrácia, do segundo andar, cuja idade lhe permite abstrair-se de minudências, tenho a certeza que uma tarde inteira a votar em mim mesmo vai esmagar os meus restantes quatro vizinhos.

(Para que conste: Cristiano Ronaldo, que ganhou hoje mesmo a Bola de Ouro, ficou em 20º lugar na referida votação de popularidade. E, dando natural continuidade à credibilidade da coisa, o segundo classificado foi o ‘imortal’ Mohamed Aboutreika – Egipto/Al-Ahly; para que conste: Ronaldo tem 14.800.000 link results no Google; Suazo 1.160.000).

'Gaita, quando eu for grande quero ser o Suazo'

'Gaita, quando eu for grande quero ser o Suazo'