Novos Poetas (XXXI) – Aldina Duarte

by manuel margarido

Qual a fronteira entre uma letra para uma música e um poema? Sempre tive dúvidas na catalogação, porque encontrei em muitos ‘letristas’ altos níveis de arte poética. E o contrário também é verdade: grandes poemas (grandes poetas) altamente cantáveis. Misteriosamente (talvez não, talvez não) o fado chamou a si excepcionais poetas – ouça-se e leia-se o melhor disco de Amália Rodrigues, Com Que Voz (1970). Aqui, publica-se um poema (letra? who cares?) da ‘raríssima’ fadista Aldina Duarte. Quem escreve assim, como cantará mal, se voz tiver e tem?


PRINCESA PROMETIDA

Há um véu no meu olhar
Que a brilhar dá que pensar
Nos mistérios da beleza
Espelho meu que aconteceu
Do que é teu e do que é meu
Já não temos a certeza

A moldura deste espelho
Espelho feito de oiro velho
Tem os traços duma flor
Muitas vezes foi partido
Prometido e proibido
Aos encantos do amor

Espelho meu diz a verdade
Da idade da saudade
À mulher envelhecida
Segue em frente na memória
Mata a glória dessa história
Da princesa prometida


(Aldina Duarte, in “Mulheres ao Espelho”/ disco)- Via Quintas da Leitura.

'rasgo o melancólico interior dos espelhos' © Mariah, Olhares, fotografia online

'rasgo o melancólico interior dos espelhos' © Mariah, Olhares, fotografia online