Novos Poetas (XXX) – Catarina Nunes de Almeida

by manuel margarido

(à Paula Cruz. Obrigado)

De novo Catarina Nunes de Almeida. Este poema, portador de uma escrita inteiramente madura, convoca uma ampla imagética e projecta-se até ao território do erotizado, transporte, em intensa gradação crescente, para um desfecho metafísico.

Lindo, digo.

Avistei a boca ao entardecer.

A língua não vinha nos mapas,

mas no palato agrupavam-se diversas constelações

e pertencia-lhes a ventura dos meus dedos.

Não havia notícias de outros povos

nem sequer uma mácula de cerejas.

Plantei o primeiro seio

a que chamámos macieira

e abandonei o ventre

à generosidade vegetal.

Nessa noite dormimos por dentro e por fora

do mundo.

Catarina Nunes de Almeidain ‘A Metamorfose das Plantas dos Pés‘, Porto, Deriva, 2008

Olhares, fotografia online)

'Laurisilva' © DDiarte, Colecção Berardo (em: Olhares, fotografia online)

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