The Queen and I

by manuel margarido

Esta assombrosa fotografia da Isabel II, cenograficamente composta por Annie Leibovitz, lembra-me que o sentimento que tenho pela monarca britânica sempre foi ambivalente. Por um lado admiro-lhe a coragem, a determinação, o férreo sentido do dever. Quando morreu a pobre pateta da Lady Di e o Blair e a plebe, e o próprio tíbio Carlos (Prince of Wales) lhe exigiram exéquias de Estado, Isabel II cedeu. Mas apenas porque percebeu que era fundamental para manter a ligação entre a “Família” e o Reino. Lá por dentro deve ter engolido sapos a espernear. E ela tinha razão, sob o ponto de vista institucional e sob o ponto de vista da virtus. Mas é esta mesmíssima razão e frieza no modo como encara o seu papel que a torna, de certa forma, inumana.

Esta fotografia revela. Isabel II não permanece apenas altiva e senhora de si, dominando tudo o que a circunda, numa perspectiva extraordinária, tendo como fundo uma idealização de paisagem. Não. Ela está apaziguada num contexto crepuscular, sombrio, soturno. O que a fotógrafa captou explica a dificuldade em “sentir” esta mulher. Ela é uma espécie de guardiã, não nos bons momentos – acho que nunca a vi rir  espontaneamente – mas nos maus. Como se as dificuldades a agigantassem. E o sofrimento lhe aumentasse a dignidade. A espessura. A dimensão icónica.

Voltando à morte da estouvada Diana, Isabel II encerra, em três palavras, o seu abismo. Num espantoso diálogo (soberbamente interpretado pela Helen Mirren (Dame) no filme The Queen) Carlos, o putativo herdeiro, e a Rainha trocam estas palavras:

CHARLES — That was always the extraordinary thing about her. Her weakness and transgressions only seemed to make the public love her more. Yet ours only make them hate us. Why is that? Why do they hate us so much?

The queen mutters under her breath.

ELIZABETH — Not ”us,” dear.

Queen Elisabeth II © Annie Leibovitz

Queen Elizabeth II © Annie Leibovitz