Poesia Portuguesa (XIII) – Jorge de Sena
by manuel margarido
Aqui se publica um poema bastante conhecido de Jorge de Sena, notável pela intrincada malha em que é tecido. Acompanha-o um comentário de Eduardo Prado Coelho.
AMOR
Amor, amor, amor, como não amam
os que de amor o amor de amar não sabem
como não amam se de amor não pensam
os que amar o amor de amar não gozam.
Amor, amor, nenhum amor, nenhum
em vez do sempre amar que o gesto prende
o olhar ao corpo que perpassa amante
e não será de amor se outro não for
que novamente passe como amor que é novo.
Não se ama o que se tem nem se deseja
o que não temos nesse amor que amamos
mas só amamos quando amamos ao acto
em que de amor o amor de amar se cumpre.
Amor, amor, nem antes, nem depois,
amor que não possui, amor que não se dá,
amor que dura apenas sem palavras tudo
o que no sexo é o sexo só por si amado.
Amor de amor de amar de amor tranquilamente
o oleoso repetir das carnes que se roçam
até ao instante em que paradas tremem
de ansioso terminar o amor que recomeça.
Amor, amor, amor, como não amam
os que de amar o amor de amar não amam.
Jorge de Sena, in Peregrinatio ad loca infecta, Portugália, Lisboa, 1969 (poema de 1965)

Henri Matisse - 'Le bonheur de vivre' (1905-6)
“(…) Se tentarmos analisar, mesmo que fugazmente, a temática do amor na obra poética de Sena, teremos de começar por reconhecer que ela é dominante, mas muitas vezes em formas pouco ortodoxas. De certo modo, Sena procurou evitar entrar na reflexividade interminável do processo amoroso, reflexividade que no entanto o instinto dialético da sua sintaxe desenvolveu por vezes até à exaustão.
Consideremos o poema precisamente intitulado «Amor», escrito em 1965, e incluído no livro ‘Peregrinatio ad loca infecta‘: […] Vemos aqui, nesta cascata verbal enredadamente interminável, que o espaço amoroso se declina entre o pensamento do amor, o amor de amar, e o acto sem o qual esse pensamento não chega ao saber do amor, que é um saber feito. Mas este espaço arqueia-se numa tensão essencial que prescinde da estabilização de um sujeito e de um objecto: é apenas o amor como infinito pessoalmodulado em todas as suas variações possíveis. Porque mais do que o amor de uma outra pessoa o amor é amor de um desejo (…).”
Eduardo Prado Coelho, in ‘O nó dos tempos’, ensaio incluido na obra colectiva Jorge de Sena em rotas Entrecruzadas, Org. Gilda Santos, Edições Cosmos, 1999.
