Novos Poetas (XXVII) – Sara F. Costa

by manuel margarido

No segundo número da criatura, um conjunto de seis poemas de Sara F. Costa, já publicada na primeira revista. No primeiro número, a autora oscilava entre o lirismo de verso fluído, como no poema ‘Contemplação‘: “sento-me na margem da tua infância/e recupero o gosto pelo esquecimento[…]” e uma progressiva deriva para uma focalização na presença do risco, do corte, onde o corpo é matéria poética sempre em fragilidade, a partir de si mesmo e com o que o rodeia, onde a fala se revela inútil. Nos seis poemas agora apresentados é este o território poético que se acentua.


rasgo a fala pelas suas fendas.

bebo o fumo tardio tardio de um domingo

menos espesso que os outros.

procuro uma noite comprida

onde possa afogar todas as sombras

e escaldar o inconsciente,

para lá da dolorosa superfície

das coisas.

as horas tremem.

mas estou parada

e o eixo à volta do qual

se inflama a rotação da linguagem

é demasiado curto.


Sara F. Costa, in revista Índice nº 2, p. 156, Lisboa, 2008

© Mariah, Olhares, Fotografia online

© Mariah, Olhares, Fotografia online