As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Poesia Portuguesa (XII) – João Miguel Fernandes Jorge

Sobre Sob Voz, o primeiro livro de João Miguel Fernandes Jorge (Bombarral, 1947), é o título da notável primeira obra de um autor que se tornaria (com António Franco Alexandre, Luís Miguel Nava, Joaquim Manuel Magalhães, primordialmente) uma das vozes poéticas fundamentais na ruptura geracional – estética, ética, programática – introduzida na poesia portuguesa na década de setenta. Sobre o livro, leia-se, pelo confronto com a sua novidade e acto fundador, a crítica de Luís Miranda da Rocha na Colóquio/Letras nº. 8, de Julho de 1972. Essa mesmo, a Colóquio/Letras que nos vão tirar. Sobre o poema, leia-se a deliciosa quase detectivesca, perplexa e maravilhada análise textual de João Luís Barreto Magalhães, em entrada datada de Janeiro de 2006, no blogue Poesia & Lda., que mantém com Jorge Sousa Braga, e que só por inépcia minha ainda não topara. Dado não possuir o livro – embora a bibliografia de Fernandes Jorge habite abundante sob sobre as prateleiras da ‘minha’ poesia – é deste blogue que se extrai um belo e enigmático poema de João Miguel Fernandes Jorge.

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Quero falar de Amadeu,
talvez nascido a 11 ou 12
de novembro. Era 1919 e
tinha já então muito de

velho. As mulheres gostaram
dele (seduzindo-o na sua
própria vida de cigano) e
do outro lado da montanha

percebiam como sabia de
crisântemos, azuis (do
mesmo azul das dunas).

Ainda o visitam, mas o
tempo de Amadeu é agora
uma ilha perdida de Bocklin.

João Miguel Fernandes Jorge, in ‘’Sobre Sob Voz’, Colecção Círculo de Poesia, Moraes Editora, Lisboa, 1971.

'A Ilha dos Mortos' (terceira versão) - Arnold Boecklin

'A Ilha dos Mortos' (terceira versão) - Arnold Boecklin

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Fotografia do Dia (XXI) – Obama e a Secretary of State

'whispering & hoping'

'whispering hope'

The body language was friendly and appropriate, if not necessarily personal. Standing behind Mr. Obama during his remarks, Mrs. Clinton nodded as he spoke of the nation’s challenges; after the event ended, the two walked out of the room arm in arm, her hand gently patting his back.” – in The New York Times, ed. 02.01.2008

'watch your back'

'watch your back'

Não serão tanto as questões de política externa que os podem dividir. Serão os ressentimentos, a memória, a agenda de cada um, o cuidadoso estabelecimento de uma linha que dê a Clinton a visibilidade que deseja (e precisa) sem colidir com a liderança de Obama. Não podia haver melhor escolha para Secretary of State, conceda-se. Mas também não podia ser mais perigosa. Este é o primeiro desafio de Obama, ao chamar Clinton: a intimidade do inner circle. Por isso, mais que as palavras, Obama aproximou os corpos.

Novos Poetas (XXVII) – Sara F. Costa

No segundo número da criatura, um conjunto de seis poemas de Sara F. Costa, já publicada na primeira revista. No primeiro número, a autora oscilava entre o lirismo de verso fluído, como no poema ‘Contemplação‘: “sento-me na margem da tua infância/e recupero o gosto pelo esquecimento[…]” e uma progressiva deriva para uma focalização na presença do risco, do corte, onde o corpo é matéria poética sempre em fragilidade, a partir de si mesmo e com o que o rodeia, onde a fala se revela inútil. Nos seis poemas agora apresentados é este o território poético que se acentua.


rasgo a fala pelas suas fendas.

bebo o fumo tardio tardio de um domingo

menos espesso que os outros.

procuro uma noite comprida

onde possa afogar todas as sombras

e escaldar o inconsciente,

para lá da dolorosa superfície

das coisas.

as horas tremem.

mas estou parada

e o eixo à volta do qual

se inflama a rotação da linguagem

é demasiado curto.


Sara F. Costa, in revista Índice nº 2, p. 156, Lisboa, 2008

© Mariah, Olhares, Fotografia online

© Mariah, Olhares, Fotografia online