As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Novembro, 2008

Agarrar a terra

O mapa que se mostra aqui representa a aquisição de terra entre países à escala global (grab, em inglês, tem um sentido mais rude e adequado que ‘aquisição’, estando mais conotado com agarrar, com ‘pôr as garras em’). Nele pode observar-se os Estados (incluindo as suas empresas privadas) detentores de terra fora das suas fronteiras e aqueles onde eles a compram. O movimento de compra de terra estrangeira em larga escala tem-se acelerado bruscamente nos últimos anos. O motivo é, quase invariavelmente, o mesmo: a produção alimentar.

Os círculos vazios representam os países compradores; os círculos cheios representam os países onde a terra foi comprada. Nota adicional: Portugal Continental tem aproximadamente 9.230.000 hectares de superfície.

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Byblos – a estupidez também vai à falência

Existem imbecis superficiais e imbecis profundos – Karl Kraus.

Quando abriu a Byblos, acho que consegui perceber tudo. Li jornais, revistas, suplementos; afundei-me em reportagens, entrevistas, artigos. Até vi na televisão. Até vi na internet. E por isso nunca lá pus os pés. Deve ter sido por isso que faliu!

(Agora a sério: poucos posts me emocionaram tanto, desde que conheço melhor a blogosfera, como o escrito de Pedro Vieira, no irmãolucia, intitulado a bymblos. É ‘obrigatório’ ler. Foi escrito por quem viveu a ‘coisa’ por dentro e dela é capaz de escrever arrasadora prosa em tom de amarga ironia. Comprova uma máxima ainda mais cruel que a citação em epígrafe: pode ser-se um imbecil profundamente superficial; pode ser-se um imbecil superficialmente profundo. Não é verdade, sr. Areal?)

Obrigado, Pedro Vieira.

'Fugi da Byblos e fui bem comerciado na Feira da Ladra'

'Fugi da Byblos e fui bem comerciado na Feira da Ladra'

Poesia Portuguesa (VIII) – Fiama Hasse Pais Brandão


O NOME LÍRICO


Esta manhã

hoje

é um nome.


Nem mesmo amanheceu

nem o sol

a evoca.


Uma palavra

palavra só

a ergue.


Como um nome

amanhece

clareia.


Não do sol

mas de quem

a nomeia.

Fiama Hasse Pais Brandão, in ‘Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o futuro‘, p.1766, Assírio & Alvim, Lisboa, Agosto de 2001

'madrugada' © Gustavo Failla, Olhares, Fotografia online

'madrugada' © Gustavo Failla, Olhares, Fotografia online


Machos em perigo

Na próxima terça-feira, 25 de Novembro, o ARTE (Canal que a TV Cabo agora ZON passou do ‘pacote clássico’ para o pacote ‘funtastic‘, como se o canal franco-alemão não fosse um bem de primeira necessidade) apresentará, em horário nobre, um documentário exactamente com este título: “Machos em Perigo“. A pesquisa apresentada (parece que contundente) não constitui nenhuma revolução no conhecimento e pode antecipar-se o seu conteúdo em artigo publicado no Le Monde de hoje. Mas afirma-se que concretiza de forma alarmante as evidências que atribuem a algumas substâncias químicas introduzidas nos hábitos de consumo e no meio ambiente, uma grave responsabilidade na redução quantitativa e qualitativa do esperma humano. Se considerados individualmente, e seguindo as práticas aceites, estes compostos (pesticidas, ftalatos, bisfemol A etc., amplamente utilizados em produtos de grande consumo) não ultrapassam, nas análises efectuadas, as doses diárias toleradas. O problema parece estar na combinação entre eles. Um cientista entrevistado no documentário, após haver medido as consequências da exposição de um rato a três substâncias químicas, resume a questão a uma fórmula assustadora: “0+0+0=7“. Niels Skakkebaek, director de investigação no Hospital Universitário de Copenhaga é categórico: “Os problemas do aparelho reprodutor masculino são, hoje, potencialmente tão graves como o aquecimento climático.” Recorde-se que, nas últimas décadas, os países industrializados observam uma diminuição de cerca de 50% no número e na qualidade dos espermatozóides, a duplicação da incidência do cancro dos testículos e de malformações genitais nos machos humanos (sendo que os répteis, peixes e batráquios são as espécies mais severamente atingidas). Parece que tudo se concentra em parte significativa, em torno dos plásticos, das embalagens alimentares, dos próprios biberons. É portanto muito difícil escapar ao problema. Será?

Pode duvidar-se que Portugal seja um país industrializado  na plena acepção do termo. Talvez se encontre aqui a explicação para uma dúvida que sempre me assaltou, nos planos fiosófico e da higiene íntima: por que raio é que as inglesas, as suecas, as dinamarquesas, as alemãs chegam ao Algarve e aterram nos braços do Zezé Camarinha? Resposta: porque o gajo é bioquimicamente mais puro.

'Venham, venham, eu cá sou do Zezé!'

'venham cá 'parigas, eu sou do Zezé'

Fotografia do Dia (XVI) – Estagflação

Stagflation is an economic situation in which inflation and economic stagnation occur simultaneously and remain unchecked for a period of time. The portmanteau “stagflation” is generally attributed to British politician Iain Macleod, who coined the term in a speech to Parliament in 1965. The concept is notable partly because, in postwar macroeconomic theory, inflation and recession were regarded as mutually exclusive, and also because stagflation has generally proven to be difficult and costly to eradicate once it gets started (Wiki Quote).
Fotografia captada em Rio Vista, Califórnia – a 8ª maior economia do mundo, se fosse um país soberano.

Construction work on a 750-home housing development in Rio Vista, California has been halted because the town is close to bankruptcy

Construction work on a 750-home housing development in Rio Vista, California has been halted because the town is close to bankruptcy

Sob o signo de Llansol

Com entusiasmo, Helena Vieira, directora da Mariposa Azual e sócia activa (se bem a conheço, hiper-activa) do Espaço Llansol, faz chegar a notícia da evocação de Maria Gabriela Llansol, dia 24 de Novembro, pelas 18 horas, na Biblioteca Municipal de Sintra. É a data de nascimento da escritora que se celebra e serve como convocação do evento, onde serão apresentados dois livros dedicados à sua obra (ver, Programa, abaixo), ambos editados pela Mariposa Azual, na nova colecção, já aqui anunciada, Rio Da Escrita. Como não é todos os dias que podemos encontrar Gonçalo M. Tavares e José Tolentino Mendonça comentando obras de João Barrento e de Maria Etelvina Santos, (havendo ainda lugar à leitura de fragmentos dos Cadernos Inéditos a cargo de Hélia Correia, Gonçalo M. Tavares e José Tolentino Mendonça, sendo que os próprios autores das suas obras falarão, estamos perante um acontecimento cultural que deve ser acompanhado e, de preferência, presenciado. A entrada é livre. Não me consta que haja croquetes e tapas, com copinhos de porto e sumo de laranja. Se assim for, ainda bem. Se houver, olha…

PROGRAMA

MARIA GABRIELA LLANSOL
Um Lugar e um legado

Sessão evocativa e lançamento de livros
Biblioteca Municipal de Sintra
24 de Novembro de 2008, 18 h.

• João Barrento: «Llansol entre nós»
• Maria Etelvina Santos: «M. G. Llansol – Um registo de vida»
• Leitura de fragmentos dos Cadernos inéditos por
Hélia Correia, Gonçalo M. Tavares e José Tolentino Mendonça,
• O espólio de Maria Gabriela Llansol: uma visita virtual

• Helena Vieira apresenta a Mariposa Azual
• Apresentação dos livros da nova colecção «Rio da Escrita»,
da editora Mariposa Azual:

• Como Uma Pedra-pássaro que Voa. Llansol e o improvável da leitura

de Maria Etelvina Santos, por José Tolentino Mendonça

• Na Dobra do Mundo. Escritos LLansolianos, de João Barrento,

por Gonçalo M. Tavares

(APOIO: Câmara Municipal de Sintra)

'Na Dobra do Mundo. Escritos Llansolianos'. João Barrento

'Na Dobra do Mundo. Escritos Llansolianos' - João Barrento

'Como uma pedra pássaro que voa' - Maria Etelvina Santos

'Como uma pedra-pássaro que voa' - Maria Etelvina Santos


Novos Poetas (XXII) – David Teles Pereira

A criatura 2, revista de poesia e prosa poética (seja lá o que isso for, vá lá meter-se em caixotinhos) já saiu há umas semanas. Embrulhadas várias transviaram-me o primeiro exemplar que comprei, pelo que, agora, só há 348 exemplares no mercado (dois estão cá em casa). Deste segundo número falarei aqui, em breve. Enquanto isso, atiço o apetite dos interessados, com um poema de David Teles Pereira, poeta já divulgado neste blogue, e que, numa primeira leitura, me parece uma das vozes mais altas no corpo da criatura. Salva-se da incipiência adolescente com o golpe de asa da ironia.


CARTA DE AMOR


Meu amor, és tão perfeita que por certo não

será um exagero comparar-te a Ofélia.

A água – pensava nela – não tem por que não ser a melhor

das fugas para quem sabe que a morte é um silêncio,

mas que vem de dentro.

Meu amor, diz-me se alguma vez vamos deixar de sonhar

com as sereias que compõem tranças em cabelos ondulados,

ou com rosas que só crescem na superfície lunar

e que não têm espinhos.

Meu amor, os meus cabelos não são de oiro nem de cinza,

são tão pretos quanto os do meu pai, quanto o meu esperma

invocado em sessões de sexo tântrico com as tuas borboletas.

Tenho tanto ciúme do silêncio e daquela vez que o

beijaste no rosto, quando ainda só tinhas vinte e um anos.

Meu amor, o teu crime foi cometido em Lisboa e, por isso,

nunca hás-de ser um Anjo a atravessar os portões do Céu.

Mas não te preocupes,

tenho vários amigos no Inferno, já lá estive um par de vezes,

e, quando voltar, havemos de arranjar forma de nos divertir.

Meu amor, sei que sonho contigo porque o faço

em eclipse total.

Meu amor, faz-me tanta falta a primeira luz do dia.

Quem me dera ter-te para a procurarmos juntos. Acho que me

vou transformar em cisne e chorar a tua queda.

Meu amor, meu amor, as nossas mãos só não estão entrelaçadas

porque tu estás morta. Mas o amor, esse sereno amor, nunca acaba.

David Teles Pereira, in revista Índice nº 2, p. 73, Lisboa, 2008

Ophelia, de John E. Millais

Ophelia, de John E. Millais

A primeira rosa azul

Através de manipulação genética, utilizando uma tecnologia bastante complexa e inútil de descrever aqui (mas que pode ser percebida melhor acedendo a este artigo), investigadores australianos (de uma subsidiária da empresa japonesa Suntory), criaram a primeira rosa azul. A demanda da rosa azul é coisa que vem do século XIX e o prémio é um mercado de milhões, dada a poderosa simbologia associada à quimérica flor. Agora já não é uma utopia, após larguíssimos milhões de dólares de investimento. Pois bem, aqui apresento a ‘primeira rosa azul’. Azul? É uma questão de opinião. Seria mais correcto dizer: ‘a primeira rosa com pigmentos azuis’. Ou então calibrar o monitor até ficar satisfeito(a).

(Resta dizer que a rosa apresentada em fotografia no artigo que está em hiperlink neste post é, eu juro sem ter factos que o comprovem, de plástico.)

'Azul? Malva? Lilás? Tanto faz, desde que renda muitos K'

'Azul? Malva? Lilás? Tanto faz, desde que renda muitos K'

Novos Poetas (XXI) – Tiago Araújo

Ainda extracção do número zero da revista Índice, este poema de Tiago Araújo (1973), com origem no livro Diaspositivos, edições quasi. Poema dos sentidos, convocando toda a paleta sensorial, a sua inquietação. Um ‘piscar de olhos’ em referência a Herberto Hélder, consubstanciado num verso.


Madrugada


Clorofórmio no alcatrão

A cama negra

Se nos deitarmos sobre nós o hálito

das respirações lentas

Se continuarmos a caminhar amanhece

Corolas sob a luz


Amanhece sobre as algas

Há mares por sobre as praias e vozes por entre

As noites

Há corpos por entre as vozes

E sal em tudo

Água límpida por vezes quando a sombra

ampara a testa

E a luz reflecte a pele que reflecte

A boca

E o sal na boca

E em tudo


Alcatrão na pele e clorofórmio nos lábios

Ser beijado é adormecer


Cintilações sem brilho

A noite nas pétalas abertas o café forte

O ruído das máquinas nos passos em volta


Não pode haver prazer sem luz.

Tiago Araújo, in revista Índice nº 0, p. 47, Mariposa Azual, Lisboa, 2008

'dá-me a tua mão por cima das horas' © mariah, Olhares, fotografia online

'dá-me a tua mão por cima das horas' © mariah, Olhares, fotografia online

Gaja nua XXX

Ci, pois claro)

Seria falso o espanto, pueril a indignação, labrego o desconhecimento dos vasos comunicantes na web. Mas ainda assim, chateia-me um bocadinho que o post anterior, com um belíssimo poema de António Osório, tivesse, até agora, seis vezes menos visitas que o post que o antecede, com uma belíssima foto de Julia Ormond. É da natureza humana e eu sou parvo? Certamente. Julia Ormond tem um rosto de enorme carga poética? António Osório concordaria, estou em crer. Mas o poema, senhores, tem pelo menos tanta fundura como o olhar de Julia. Não digo que tem mais. Não digo que tem menos. O equivalente, está bem?

Haverá um marketing de guerrilha para ‘vender’ poemas? Suponho que esta questão não seja nada estranha a quem mantém blogues. Suspeito mesmo que seja familiar. Mas eu meti-me nisto faz pouco. Desbravo, em consequência. Experimente-se, portanto, a paródia. Utilize-se o título deste post mais uns tags criteriosos. E deixemos, ‘como quem não quer a coisa’, um belo poema de António Osório,  ‘erótico’ ainda por cima. O feitiço joga com o feiticeiro. A busca brinca com o motor. Talvez este poema seja lido em abundância. Talvez jorrem, caudalosas, poéticas pesquisas. Aguardemos. Darei conta.

*

Claro, o título do post seria: Poesia Portuguesa (VII) – António Osório. Mas poderá ser trocado daqui a umas semanas. Até lá, saberei se intumescentes demandas literárias assaltaram esta ‘entrada’. Como se divertem, as palavras…

NASCENTE


Quando sinto de noite

o teu calor dormente

e devagar

digo: cedro azul,

terra vegetal,

ou só

amor, amor;

quando te acaricio

e devagar

para que não despertes

tomo na mão direita

as duas fontes, iguais, da vida,

procuro a nascente

e adormeço

nela essa mão depositando.


António Osório, Casa das Sementes – poesia escolhida, p. 114, Assírio & Alvim, Lisboa, 2006.

Vénus de Willendorf (c. 25.000 A.C.)

Vénus de Willendorf (c. 25.000 A.C.)

Poesia Portuguesa (VI) – António Osório

Em Setembro de 2006 publicou a Assírio & Alvim o livro Casa das Sementes – poesia escolhida, do poeta (e advogado, agricultor, figura ‘renascentista’), António Osório. Com capa de Mário Botas (um belíssimo retrato do escritor), o volume, como o nome indicia, reúne a escolha que o autor entendeu fazer, no conjunto da sua própria obra. Temos, deste modo, uma antologia que percorre quase toda a obra de António Osório, desde A Raiz Afectuosa (1972) até Libertação da Peste (2002), com uma muito interessante e divertida auto-entrevista a iniciar o volume, recuperada de Décima Aurora (1982). Sobre Casa das Sementes foi feita, por Eduardo Pitta, análise crítica mais que estimulante, no enquadramento e percepção da importância do escritor e do livro, logo após sua publicação. E que se pode ler no blogue Da Literatura. Aqui se deixa um poema (muito do meu gosto) de Felicidade da Pintura, segunda parte do livro O Lugar do Amor (1981).


UM SENTIDO


Porque há um sentido

no lírio, incensar-se;

e no choupo, erguer-se;

e na urze arborescente,

ampliar-se;

e no cobre, primeira cura,

que dou à vinha,

procriar-se.


E outro, pressago,

sentido há na memória,

explodir-se.

E outro, imensurável,

no amor, entregar-se.

E outro, definitivo,

na morte, render-se.

António Osório, Casa das Semantes – poesia escolhida, p. 140, Assírio & Alvim, Lisboa, 2006.

eternity © Mariah, Olhares, fotografia online

eternity © Mariah, Olhares, fotografia online

Fotografia do Dia (XV) – Julia Ormond

Pode não ter sido como Vanessa Redgrave, ou chegado à craveira de Helen Mirren (Dame), mas esta actriz inglesa tem uma carreira honesta em Hollywood. Suspeito, aliás, que tenha sido mais aproveitada pela beleza que pelo talento. Ora parva não é Julia Ormond. Wiki quote: “On 2 December 2005, Ormond was appointed as a United Nations Goodwill Ambassador by Executive Director Antonio Maria Costa. Her focus has been on anti human-trafficking initiatives, raising awareness about this modern form of slavery and promoting efforts to combat it. In her capacity as ambassador, Ormond has appeared as council to the United States House of Representatives, Committee on International Relations, Subcommittee on Africa, Global Human Rights and International Operations, and has travelled the world as an ambassador“. Pois. Mas este olhar pode atear um incêndio íntimo.

(Quiz: tropecei nesta fotografia através de pesquisa ao nome da actriz. Adivinhe-se qual o blogue português onde se encontrava…?)

'Ora então vamos lá levar isto com calma, meus senhores'

'Ora então vamos lá levar isto com calma, meus senhores'


Blog Digest (2)

Alguns posts, recolhidos esta semana na blogosfera, que pedem atenção e gratidão.

No Provador de Venenos, (creio que publicado originalmente no Jornal de Negócios) João Pinto e Castro desenvolve opinião tão estimulante como polémica sobre a questão, incontornável nestes dias, da avaliação dos professores. Obrigado por ir contra a corrente.

Ana Cristina Leonardo, no seu Meditação na Pastelaria, escreve um post delicioso, com dois links que seriam hilariantes, não fossem também tristes. Crie-se algum suspense: sob o título E ninguém os interna…, aborda as directivas comunitárias sobre espécies hortícolas e frutícolas; e a notícia da proibição de distribuir frutas e legumes, imposta ao Banco Alimentar contra a Fome, em nome dos ‘parâmetros da U.E.’. Obrigado pelas gargalhadas. Tristes gargalhadas, é certo.

Quem diria que Barack Obama escreveu poemas na juventude? Claro, todos escrevemos, por que não ele? Certo é que foram ‘encontrados’ pela New Yorker, que os publicou e comentou. Atento, Eduardo Serra Lopes deles dá notícia no Casa dos Poetas, e edita-os em português, com tradução de Tiago Nené. Ainda por cima não são nada ‘beras’, os dois poemas. Obrigado pela descoberta.

Rui Bebiano dá conta da morte de João Martins Pereira, no Caminhos da Memória, em notável artigo (Uma Lição de João). Conheci a obra de João Martins Pereira naturalmente mal, na juventude borbulhenta, mas ainda comprei No reino dos falsos avestruzes, na pequenina livraria da Assírio, no defunto Terminal – quem se lembrará? – Li o livro e só pesquei perplexidades, claro. Mas percebi que  era pessoa com pé na realidade, e outro na utopia. Uma raridade, portanto. Alguém ter-se lembrado de registar dignamente o óbito deste pensador de esquerda, que, apesar da heterodoxia (ou por causa dela) era muito estimulante, deve ser assinalado. Obrigado pela memória.

Lutz Brückelmann, autor do excelente quase em português, também tem memória. Num post datado de 11 de novembro, recorda a passagem dos 90 anos sobre o fim da I Guerra Mundial, a drôle de guerre. O texto é breve, contundente e introduz uma impressionante (adjectivo de Lutz, que subscrevo, acrescentando que estamos perante uma obra que espelha magistralmente a tragédia da guerra) galeria de desenhos de Otto Dix, soldado sobrevivente ao conflito, que pode ser descarregada em pdf. a partir do post. Obrigado pelo achado, e por tê-lo partilhado.

Termine-se com um post que, não sendo desta semana (é de Agosto e, aparentemente, o último do Letra de Forma) dá gosto, pela forma apaixonada como Augusto M. Seabra fala de um disco. Neste caso as Sinfonias nº38 “Praga” & nº41 “Júpiter”, de Mozart, interpretadas pela Freiburger Barockorchester, dirigida por René Jacobs, em edição da Harmonia Mundi. Obrigado pela contagiante paixão.

desenho nº 26 do álbum Der Krieg, de Otto Dix

desenho nº 26 do álbum Der Krieg, de Otto Dix


Colóquio/Letras – In memoria æterna erit justus

Não quero saber dos detalhes, da teia de desentendimentos, de ressentimentos, de zangas, que deram origem à suspensão preventiva de funções e instauração de um processo disciplinar tendo em vista ‘o despedimento com justa causa’ da Directora da revista Colóquio/Letras, Joana Morais Varela.

Antes quisesse. Antes me embrenhasse nesses meandros, para de novo encontrar motivos de vergonha pelo meu país, triste forma de estar alerta. É um sentimento estranho este: doer-nos de vergonha uma entidade abstracta, um país. Um sentimento absurdo, também: porque, se algum motivo de orgulho nos redimia da triste vida cultural portuguesa, ele tinha casa e morada na Fundação Gulbenkian. Em outros lugares, decerto. Mas era aqui o seu castelo. Uma torre alumiada em pleno turvo charco salazarista.

Na Fundação fazia-se a única revista literária inquestionável em Portugal. Abdique-se dos adjectivos, por ser substantivo o assunto: não conheço nenhum paralelo editorial comparável à Colóquio/Letras. Em lugar nenhum em civilizadíssimas nações. Tenho, aqui atrás de mim, as 14 caixas da Colóquio (1959-72), publicadas antes da cisão que deu origem à defunta Colóquio/Artes e à agora condenada Colóquio/Letras, também ela atrás de mim. E posso avaliar. Posso e devo dizer que era com grande alegria que o meu tio, João Bação Leal, (pai do José Bação Leal, poeta de quem um dia falarei) a comprava, lia cuidadosamente – e com cuidado – para não estragar. (Já quando só era Colóquio se lhe acusava o ‘luxo’, as impressões a cores especiais, como o dourado, uma luxúria numa revista, os tempos  convidavam a mostrar austeridade). Do meu tio herdei a Colóquio. Eu continuei com a Colóquio/Letras. Porque me ajudava a perceber o essencial: a literatura como um território outro, pregnado da experiência humana nas suas infinitas, incomensuráveis, improváveis e maravilhosas expressões.

*

A Colóquio/Letras era uma revista desmesuradamente ‘luxuosa’? Era, claro que era. Tinha de ser! Porque nada naquele ‘luxo’ se revelava deslocado ou gratuito; correspondia integralmente à liberdade editorial, ao crescente impulso para os números temáticos que faziam literalmente conhecer de novo autores e passar a amá-los só porque assim nos eram apresentados; conjugava-se com o ‘luxo’ de um editing anormalmente rigoroso, sem tradição no nosso país.

À minha frente está o duplo número 145/146, Julho – Dezembro 1997. Infinito Pessoal homenagem a David Mourão-Ferreira 1927-1996. Eram precisas fotografias tão boas? Eram necessários extra-textos tão raros, perfeitos, caros? Tantos papeis diferentes? Tão boa impressão e acabamento? Era indispensável que até a Bibliografia Activa do autor fosse ilustrada? Era! Por muito que alguém gostasse do escritor, aquela revista permitia ‘estar com ele’. Conhecer-lhe o corpo. A mão. A caligrafia. Os olhos cansados de bondade. Cansados de alegria.

Ah, mas em Portugal a competência também cansa. Com um processo disciplinar e uma ‘justa causa’ despede-se a competência. Essa raridade, que deve andar com trela. Essa lebre a abater.

Joana Morais Varela.

(Nota: para acompanhar mais de perto esta triste história, nada como aceder ao blogue Da Literatura, onde Eduardo Pitta tem vindo a dar um destaque maior ao caso que grande parte da comunicação social. E onde se pode também encontrar um link para um texto aberto à subscrição, da autoria do grupo “Amigos da Colóquio”. Junte o seu nome, se atribuir importância ao assunto (eu detesto abaixo-assinados. Assinei. • De igual forma, merece ser lido, por muito mais significativo, informado e certeiro que estas linhas, o texto de Osvaldo Manuel Silvestre, no blogue Os Livros Ardem Mal).

Colóquio Letras - 'Infinito Pessoal'. Número 145/146, 1997, Homenagem a David Mourão-Ferreira

Colóquio Letras nº 145-146, 1997

Coração de Mãe

É o nome do livro com ilustrações de Bernardo Carvalho e texto de Isabel Minhós Martins (Planeta Tangerina, 2008). A obra deu origem a uma exposição que, depois de ter passado pelo Chiado, pode ser vista até ao final de Dezembro na ILUSTRARTE, Auditório Municipal Augusto Cabrita, no Barreiro. É fácil chegar lá. É bom chegar a quem de mãe assim se entretém.

© Bernardo Carvalho, Isabel Minhós Martins

© Bernardo Carvalho, Isabel Minhós Martins

© Bernardo Carvalho, Isabel Minhós Martins

© Bernardo Carvalho, Isabel Minhós Martins

Fotografia do Dia (XIV) – Kim Jong-il

Temos a triste memória de como os regimes totalitários que se formaram a partir da matriz marxista foram exímios a refazer a história, retocando fotografias. É célebre o desaparecimento de Trotsky numa foto, onde havia um antes, com ele, Lenine e Estaline, e um depois sem ele, Trotsky. A fotografia era a mesma, mas já era outra. Assim se revia a história. Era a ‘fotografia revisionista‘. Agora é a ‘fotografia ilusionista‘ que parece praticar-se na Coreia do Norte. Perante um anormalmente prolongada ausência de Kim Jong-il (o ‘Querido Líder’, filho do ‘Grande Líder’ Kim Il-sung), começaram a correr rumores sobre dois severos ataques (derrames) cerebrais, um em Agosto, outro em Outubro, de acordo com a AFP/Tóquio. Há mesmo quem especule que já tenha morrido. Certo é que as autoridades norte-coreanas sentiram a necessidade de divulgar um conjunto de fotografias onde ‘aparece’ o Querido. O exercício de detectar manipulações nestas imagens tem ocupado especialistas ocidentais, como pode ser apreciado numa galeria da Time. É o caso desta, onde tudo parece normal: porém, entre o Líder Querido e os dois militares ao seu lado, um muro baixo a que falta o rebordo, sugere um amoroso trabalho de photoshop (se utilizarem o programa, coisa de que duvido). O resto da galeria é motivo para uma minuciosa tentativa de encontrar incongruências. No país onde nada corre mal, que mal há em dar uns retoques na realidade?

'olhó passarinho...'

'Olhó passarinho...'

Paródia gráfica

A serigrafia de Shepard Fairey com a imagem de Barack Obama transformou-se na imagem icónica da campanha eleitoral americana. Como a imaginação é fértil, deu de imediato origem a sucedâneos paródicos, que utilizam a mesma expressão formal, e reformulam a palavra HOPE em função da personagem.

barack obama

sarah palin

amy winehouse

Bento XVI

Poesia Portuguesa (V) – Luiza Neto Jorge

AS MENINAS


Secámos à mãe

seu leite de mãe

mas não desatámos

do cordão os nós

Infuso no corpo

algo se rebela

são as luas dela

que não brilham em nós


Nosso pai amámos

num amor sem termos

com dentes de leite

com um fio de voz

e se ele nos não queria

no quarto o degredo

era não sabermos

como nos traía


Quando os apanhámos

nos degraus do trono

a lutar de amor

depois mudos, quedos

a morte aflorou-nos

mas não enfiámos

na ficha de elec-

tricidade os dedos.


Fugiu-nos a mão

a forçar o sôfrego

o fluente túnel

onde ainda é cedo.

Pegamos num livro

vamos aprender

na ponta da língua

os novos dizeres,

o primeiro sangue

é que mete medo.


Luiza Neto Jorge, A LUME, p. 29/30, Assírio & Alvim, Lisboa, 1989.

"A familia" (1988) © Paula Rego

"A família" (1988) © Paula Rego

Rothko ao contrário?

Na Tate Modern (Londres) pode apreciar-se, até 1 de Fevereiro, uma exposição que reúne as nove obras doadas por Mark Rothko à instituição a outras da série a que pertencem, The Seagram Murals. Outros trabalhos se juntam a este conjunto, para formar aquela que a própria Tate qualifica como ‘the must-see exhibition of the year’. Perfeito, adorava lá voltar, a sala Rothko deixou-me em silêncio durante uma hora, vai fazer três anos, desta vez não posso.

Perfeito? Há quem diga que duas obras de Mark Rothko – do conjunto Red on Maroon, incluídas na referida série de pinturas encomendadas para a decoração do Edifício Seagram, criadas em 1958-9 – estão colocadas ao contrário! De acordo com alguns peritos a questão é básica, uma vez que a colocação das obras deveria ser feita de acordo com a orientação da assinatura do autor. Elementar? Nicholas Serota (Sir), director da Tate Modern, acha que não e parece que nada se fará quanto ao assunto. A seu favor tem o facto de não existir qualquer fotografia ou prova que valide a vontade de Rothko. E a troca de orientação que Rothko deu à linearidade das cerca de 40 telas, passando-as da horizontal para a vertical, de modo a combinarem com os restantes elementos do restaurante do edifício (colunas, janelas, portas).

É verdade que não existirá melhor lugar que a Tate Modern para ver a obra de Mark Rothko, embora uma das possíveis razões para a surpreendente doação que o pintor americano fez, residisse na vontade de ter parte da sua obra no mesmo lugar onde se expunha largamente Turner. Acontece que, com a separação da Tate em Britain e Modern, as obras dos dois autores ficaram dissociadas no espaço.

Mais importante que estas querelas: quem puder, vá ver a exposição do homem que dizia: “I am not an abstract painter. I am not interested in the relationship between form and color. The only thing I care about is the expression of man’s basic emotions: tragedy, ecstasy, destiny.

Red on Maroon Mural, Section 3 1959 © Kate Rothko Prizel and Christopher Rothko/DACS 1998

Red on Maroon Mural, Section 3 1959 © Kate Rothko Prizel and Christopher Rothko/DACS 1998

Poesia Portuguesa (IV) – Fernando Assis Pacheco

Em 1976 saía do prelo, com a chancela da centelha, editora de Coimbra que chegou a ser marcante na década de setenta, Catalabanza, Quilolo e volta, de Fernando Assis Pacheco (1937 – 1995). Nada mais era que a versão original de Câu Kiên: um resumo, colectânea de poemas em edição de autor (1972), onde os topónimos eram deliberadamente deslocados para um Sueste Asiático em guerra. Mas de África e da guerra colonial o autor falava, da sua jornada pessoal e traumática. E havia que enganar a Censura. Em 1976, porém, já não era necessário. Os nomes dos lugares foram repostos. Mais que um libelo contra a guerra, era a poesia de Fernando Assis Pacheco que se destacava na sua grande liberdade formal, na intensidade emocional. O escritor afirmava, com alguma frequência, ‘não levar a sério’ o resultado do seu trabalho poético, até por respeito a poetas que considerava maiores. Relida contemporaneamente, a obra de Assis Pacheco (disposta em poesia, romance, crónicas) é cada vez mais conhecida. E valorizada.

(Nota: a página da Wikipédia relativa ao autor contém erros, entre os quais o nome da obra referida, da qual se recolheu este poema. À falta de melhor, mesmo assim ligo-a em hiperlink).

A EPOPEIA

Multa quoque et bello passos

VIRGÍLIO


Mas. Sobrevinha o sono.

E porém. Último

entre todos adormecia


porque. Aqui entra

uma explicação. Ao

fundo do quarto


comum estava posta

poisada. Isto é. Dentro

da bota uma granada


espoletada. Ou seja.

Pronta a mandar hein?

tudo para as malvas


(glg, a boca seca).

De onde eu ficar

sempre um pouco mais.


Pensando em coisas.

Como seja. Sem

o f. da p. saber


esconder-lhe um dia

a bota. A granada.

Sob o travesseiro!


Fernando Assis Pacheco, Catalabanza, Quilolo e volta, p. 37, centelha, 1976.

(...)poisada. Isto é. Dentro/ da bota uma granada(...)

"(...) poisada. Isto é. Dentro/ da bota uma granada (...)"