Novos Poetas (XXVI) – Filipa Leal

by manuel margarido

Filipa Leal (1979), já com obra publicada  – Lua-Polaroid (ficção, 2003), Talvez os Lírios Compreendam (2004), A Cidade Líquida e Outras Texturas (2006), e O Problema de Ser Norte (2008) -, emerge com a grave leveza de uma poética no limiar da narrativa, processo que lhe permite acentuar um lirismo intenso, construído em torno da interpelação do quotidiano, transmutado em matéria poética. Em linha divergente de muita da poesia que se escreve agora, o ‘eu’ desloca-se do centro do poema, deixando de ser o seu objecto focal, para o lugar da ‘observação’ poética do real, de interacção emocional com as coisas, as pequenas coisas. Os resultados são (no livro Talvez os Lírios Compreendam, o único que li) de uma espessura intensa. De um desencantado humano olhar.

ESCREVIA À MÃO A CIDADE

Habitava da cidade
os lugares mais pequenos.

Limpava-lhe o pó,
pintava-lhe os cabelos,
escondia-lhe as rugas
(chegava mesmo a deitar-se
ou a deitar areia sobre as ruas
abertas).

Às vezes chorava-lhe no centro
a ausência,
ou matava-lhe os homens
que corrompiam os homens.
Por fim,
esquecia-lhe as feridas.

Escrevia à mão a cidade
e a cidade escrevia-se
sobretudo
no cinzento
no esquecimento.

Eram tão simples as palavras
da cidade,
mas complexos os amigos
que dela habitavam
os lugares mais pequenos.


Filipa Lealin ‘Talvez os Lírios Compreendam‘, Cadernos do Campo Alegre, 2004.

(tanto ruido no interior deste silêncio) © Mariah, Olhares, fotografia online

(tanto ruído no interior deste silêncio) © Mariah, Olhares, fotografia online