As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Le Carré no Courrier – um serviço

Ainda a propósito do número de Dezembro do referido Courrier Internacional, a edição salva-se em grande estilo com um esplêndido texto biográfico de John Le Carré (uma devoção, desde ‘A Perfect Spy‘) onde o escritor relata, num tom supinamente irónico, os seus tempos de espião profissional. Como a peça em causa tem o título «The Madness of Spies – A Secret Service secret» e, na tradução portuguesa (não assinada) surge redutoramente vertida em «Um segredo dos Serviços Secretos»; como o texto começa desta forma: «I carried my first 9-mm. automatic Browning when I was just twenty years old. I was a National Service second lieutenant in the Intelligence Corps in Austria. It was my first clandestine mission, and I was in heaven.», e a tradução nos oferece «Tinha apenas 20 anos, quando tive a minha primeira Browning automática de 9mm. Era segundo-tenente do National Service, em serviço no Intelligence Corps, o destacamento dos Serviços Secretos britânicos na Áustria», penso que presto um decente ‘serviço’ ao deixar aqui o link para o texto original, publicado em 29 de Setembro no The New Yorker.

Nota: Na capa do mencionado C.I., surge o título «Espionagem – John Le Carré conta a sua história». Se o título referido no post anterior era, verdadeiramente, um understatement, este é, em boa verdade, um exageradíssimo overstatement. Critérios).

'lindo serviço...'

'mas que lindo serviço...'

Fotografia do Dia (XX) – Os Robots Eróticos

O Courrier Internacional, na sua edição portuguesa de Dezembro, ostenta na capa esta notável fotografia. Bem mais notável que a compilação de artigos relativos ao tema, diga-se. Reza assim, também na capa: ‘Robôs quase humanos – os progressos da inteligência artificial aproximam-nos da ficção científica. E levantam problemas éticos‘. Uma modelo de retórica prudente, estes título e sub-título. O pessoal quer é pormenores. E lá estão, bem maquilhados de sociologia, psicologia comportamental, evolução tecnológica, etc. Em síntese: parece que a investigação, em robótica, está a desenvolver aceleradamente  aplicações funcionais nos domínios da guerra e do sexo. Necessidades básicas, portanto. O mercado manda.

'Abraça-me. Tenho frio!'

'Abraça-me. Tenho frio!'

Pérolas (1)


“The financial situation at the moment is so bad

that women are now marrying for love”

– anónimo –


'lovers on the Seine'

'mori, se não tiveres uma cabaninha, serve uma tendinha'

Novos Poetas (XXVI) – Filipa Leal

Filipa Leal (1979), já com obra publicada  – Lua-Polaroid (ficção, 2003), Talvez os Lírios Compreendam (2004), A Cidade Líquida e Outras Texturas (2006), e O Problema de Ser Norte (2008) -, emerge com a grave leveza de uma poética no limiar da narrativa, processo que lhe permite acentuar um lirismo intenso, construído em torno da interpelação do quotidiano, transmutado em matéria poética. Em linha divergente de muita da poesia que se escreve agora, o ‘eu’ desloca-se do centro do poema, deixando de ser o seu objecto focal, para o lugar da ‘observação’ poética do real, de interacção emocional com as coisas, as pequenas coisas. Os resultados são (no livro Talvez os Lírios Compreendam, o único que li) de uma espessura intensa. De um desencantado humano olhar.

ESCREVIA À MÃO A CIDADE

Habitava da cidade
os lugares mais pequenos.

Limpava-lhe o pó,
pintava-lhe os cabelos,
escondia-lhe as rugas
(chegava mesmo a deitar-se
ou a deitar areia sobre as ruas
abertas).

Às vezes chorava-lhe no centro
a ausência,
ou matava-lhe os homens
que corrompiam os homens.
Por fim,
esquecia-lhe as feridas.

Escrevia à mão a cidade
e a cidade escrevia-se
sobretudo
no cinzento
no esquecimento.

Eram tão simples as palavras
da cidade,
mas complexos os amigos
que dela habitavam
os lugares mais pequenos.


Filipa Lealin ‘Talvez os Lírios Compreendam‘, Cadernos do Campo Alegre, 2004.

(tanto ruido no interior deste silêncio) © Mariah, Olhares, fotografia online

(tanto ruído no interior deste silêncio) © Mariah, Olhares, fotografia online