Poesia Portuguesa (XI) – Mário Cesariny

by manuel margarido

Ainda em memória de Mário Cesariny.

PARADA


Com um grande termómetro no chapéu

e um certo ar marcial equidistante

todos saíram hoje das suas casas na duna

para a rua a soprar o vento que vem de longe

a certeza que há-de vir de longe


Os prisioneiros polícias dos polícias prisioneiros

nas montras nos passeios por baixo dos bancos

passam os pontos escuros para o outro lado

sem esquecer o espelho

sem esquecer o aranhiço meticulosamente pequenino

para fazer a surpresa

sem esquecer a borboleta tonta que sobe no horizonte

da cor do sol

o pescoço da nossa felicidade


Mário Cesariny, in ‘burlescas, teóricas e sentimentais’, p. 124, colecção forma nº 7, Editorial Presença, Lisboa, 1972 (Antologia, tendo origem o poema na obra ‘Pena Capital‘, 1957).

Mario Cesariny - Óleo sobre cartão

Mário Cesariny - Óleo sobre cartão