Novos Poetas (XXV) – David Teles Pereira

by manuel margarido

Por deferência de Beatriz Hierro Lopes, recebo este poema (assim como o anterior, de Diogo Vaz Pinto). David Teles Pereira num registo lírico desencantado, onde as marcas referenciais ao Livro Sapiencial ‘Cântico dos Cânticos’ são visíveis (por vezes muito). Porém, em confronto com o poema publicado em criatura 2 e aqui já editado (‘Carta de Amor‘), um surpreendente salto na desenvoltura, ampliando uma identidade de escrita e um domínio formal dos seus processos que faz esperar a emergência de um percurso poético maduro. O que se considera sobre este poema poderia, de igual forma, aplicar-se ao trabalho de Diogo Vaz Pinto.

(Nota do Autor: Uma versão mais curta deste poema foi publicada anteriormente no blogue {O Melhor Amigo]. Para além dos versos acrescentados e de algumas alterações nos versos da versão original, foi mudado o título do poema, o que, por si só, corresponde à alteração com mais significado. A versão original a que se deu o nome de Cântico Maior (furtado a Fiama Hasse Pais Brandão) pretendia ser uma adaptação, mudança ou variação da primeira parte do Cântico dos Cânticos atribuído a Salomão.


Cântico Menor

Negasses-me o incenso da tua pele as tuas rajadas Elevação
superior à morte.
Através do mar que em teus seios nasce Mar onde eu afogado
Sempre te amei.
Faz-se um cometa entre os teus dedos e a corrente impede-me
de avançar Fiquemos tristes, fiquemos
presos nas tuas rajadas Elevação
eu fantasma que sempre te amou.

Ruiva e eterna escrava do Sinai de olhos
vazios como um diamante comprado na Pelikaanstraat.
Observa-me altíssima que rubros são teus filhos
do metal nascidos
contra o sangue que me corre nas veias revoltados
nunca escolhidos.

Tu aquela que sugou o meu astro, dá-me de beber
o que carregas na boca
por baixo da língua. Porque hei-de ser a expiação
o anjo caído no centro da terra onde se respiram as areias?
Sei que tens mau sangue ó mais dispendiosa das mulheres
não esperes por mim
perto dos rebanhos que enquadras como a morte
como o teu ciclo de sangue.

Tu demónio que puxa o carro do Portador como
demónio nascido dentro de mim te invoco.
Embelezam os teus dotes o fogo e o grifo que te adorna
como um rastro de medo.
Sangue real é servido em tua honra e as estrelas
rematam a minha derrota.
Quando a corrente desatar de nardo se vai adornar
o leito da tua brancura judaica.
Entre os meus dedos o sangue a linfa o vinho
e eu que sempre te amei não terei descanso.
Eu que sempre te amei hei-de semear a tempestade
e os pássaros de asas negras obedecerão a Azazel.
Ó meu inimigo assumido em silêncio suave é o toque
desta espécie de morte.
Vigia o meu templo sem paredes chamado Devoção.

Eu orquídea nascida nas areias do Negev de pétalas tatuadas.
Como a orquídea rodeada de sede assim me vês amante
cujos filhos fazem brotar da terra a própria luz.
Assim vês Teus filhos nascidos do metal irreverente
Elevação qual forma impura.

Tu sombra amaldicionada nos espelhos Escuro é o teu desejo
o canto O silêncio e o ciclo de sangue das tuas filhas.
Adormece-me pois que estou doente de amor
fraco da garganta em teu regaço. Ó essência de amêndoas
o meu fruto a minha tortura Sempre te amei e És tu.
Soubesse o amante erguer-me de entre as flores
e ser-me-ia possível possuir esta verdade
a história de como corpos se transformam em diferentes corpos.

Mulher nascida em Jerusalém num dia vermelho
pelos animais que cruzam o deserto todos as noites
não me envolvas eu que sempre te amei não me envolvas
em teus ébrios segredos Elevação qual forma impura.
O invernos vêm e vão sucedem-se Eterno é o frio
da tua ausência Salomé.
Brotam como nascidos da terra os teus seios eis que chegou
o tempo das rosas eis que o vento de Novembro sopra
desde as colinas de Baal-Hermon o lugar da transformação.
Deixo os meus olhos nos teus aí não teremos frio
neste corpo vive Lilith que brinca com espelhos
pede Pede que todos os dias dances para ela Salomé
e os teus filhos expiarão com sangue a tua altíssima culpa.

Negasses-me a tua essência
O vinho que me inicia nos mistérios de Hattin
Elevação na sua forma mais impura.
Eu que sempre te amei qual fantasma que habita
em silêncio as grutas do Negev seu Lírio dos Lírios.
Dança em meu redor Rosados são teus lábios
eis que chega a hora em que os surdos ouvem Dança
e rápido serás superior à morte Dança
Elevação qual forma impura.

David Teles Pereira(enviado por correio electrónico)

'deserto do mar vermelho © carlosmfernandes, olhares, fotografia online

'deserto do mar vermelho' © carlosmfernandes, olhares, fotografia online