Novos Poetas (XXIV) – Diogo Vaz Pinto

by manuel margarido

(poema recente do autor, datado de dia 20 de Novembro – também pode ser encontrado no blogue O Melhor Amigo.

Ontem deitado no divã entendi quase sem querer
algumas das linhas que escreveste,
provocaram-me cólicas naquele momento, mas depois
fumei o melhor dos meus cigarros sentindo à distância
a perfeição formal dos teus lábios, o modo
como espremias o meu horizonte
e o desfazias, reduzindo-o ali em pus.
Quis bater palmas mas senti o ciúme uivando
no meu peito, essa coisa que agita os fracos.

Neste tempo em que se consagram poetas menores,
lembro-me que foste tu quem sorriu primeiro
enquanto me segredavas ao ouvido:
eis que chega renovada a hora dos assassinos.

Só agora começo a perceber-te.
Olhei um quadro que nunca teve sentido para mim
e vi um carrossel cheio de crianças enraivecidas
de alegria. Brincavam até à morte e os seus corpos explodiam,
luminosos, num festim alegórico.
Peguei na esferográfica e, sem ter palavras,
desenhei no pulso um relógio. Encostei a cabeça de lado,
ouvi o seu ponteiro imaginário chutando os meus segundos
e o tempo passou-se, mijando círculos à volta dos meus pés.

Esta noite dormi numa cabine telefónica, sonhando
com uma chamada de longa distância. Pareceu-me
ter-te ouvido respirar do outro lado e já não sei
se me toquei procurando uma espécie rara de orgasmo
ou se apenas senti o sexo encolher-se na boca do medo.

Quando acordei estava encharcado num suor branco,
voltei ao quadro, mas já não vi nada.
Agora não posso dizer se tudo não passou
de um distúrbio epiléptico ou se o ciúme…
No fundo eu sei e tu sabes que entre os dois
só um vai caber nos livros de História.
Talvez aquele que à beira do fim
seja encorajado pelo outro a suicidar-se.

Diogo Vaz Pinto(enviado por correio electrónico)

© joão goulão, olhares, fotografia online

© joão goulão, olhares, fotografia online