Poesia Portuguesa (IX) – José Tolentino Mendonça

by manuel margarido

Naquele que penso como o primeiro livro já pleno da sua voz única de poeta, longe não sabia, José Tolentino Mendonça partiu para uma obra que se destaca, com fulgor, no panorama da produção poética da década de noventa. Aqui se deixa o primeiro poema do singelo (e lindo) livro, da colecção forma, da Editorial Presença. Singelos eram os livros, grandes poetas por esta colecção passaram.

OS INCÊNDIOS


Não devias empurrar fogo tão solitário

sob os umbrais de uma morada

nos carreiros que vão dar aos montes

sairás ainda em súplica

quando os incêndios ignorarem a ameaça

da tua vassoura de giestas


a sombra uma vez avulsa

não retorna a mesma


não despertes o que podes calar


José Tolentino Mendonça, in ‘longe não sabia’, p. 9, colecção forma, editorial Presença, Lisboa, 1997

'sequelas' © luis oliveira, Olhares, fotografia online

'sequelas' © luís oliveira, Olhares, fotografia online