Cavaco e o BPN

by manuel margarido

Cavaco Silva é um Antigo. Anterior à consciência moderna da desordem íntima. Anterior a Pessoa. Anterior a Freud. Cavaco Silva foge dos estados de alma. Procura a organização racional e vigia, férreo, as emoções. É um homem em constante trabalho de agregação do Eu (a frase ‘nunca me engano e raramente tenho dúvidas‘ não era uma bravata, enunciava um programa de vida).

Por isso se estranha muito o Comunicado da Presidência da República, sobre a sua (não) relação com o BPN. Porque nele tudo é desordem. No plano institucional (público), comunica a partir da sua condição de Supremo Magistrado da Nação. Ora o Presidente da República não pode responder, em Comunicado Oficial, a ‘mentiras’, ‘insinuações’, de que tomou conhecimento por meio de ‘contactos estabelecidos por jornalistas’. Que se saiba, ninguém duvida da honradez de Cavaco Silva, Presidente da República.

Mas a desordem reside, mais concretamente, no facto de sermos confrontados com um Comunicado do ‘Prof. Cavaco Silva e a sua Mulher‘. Ou seja, uma declaração no âmbito do privado (onde a pequena minudência impera, com detalhes que são, de forma geral, desnecessários e, por isso, pela ideia implícita de ‘quem não deve não teme’, confrangedores). Que se saiba, ninguém duvida da honradez de Cavaco Silva, Cidadão.

O que terá passado pela cabeça do homem ao utilizar, de forma cristalina, o espaço comunicacional proporcionado pelo seu cargo para procurar a reposição de uma honra inquestionada, pertencente à sua vida privada?

Quem falou, neste comunicado? O Presidente Cavaco? O Prof. Silva? Em qualquer caso, seja bem-vindo aos pavores identitários do mundo pós-moderno.

'Estou a ver. Não quer deitar-se um pouco no divã?'

'Estou a ver... Não quer deitar-se um pouco no divã?'


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