As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Cavaco e o BPN

Cavaco Silva é um Antigo. Anterior à consciência moderna da desordem íntima. Anterior a Pessoa. Anterior a Freud. Cavaco Silva foge dos estados de alma. Procura a organização racional e vigia, férreo, as emoções. É um homem em constante trabalho de agregação do Eu (a frase ‘nunca me engano e raramente tenho dúvidas‘ não era uma bravata, enunciava um programa de vida).

Por isso se estranha muito o Comunicado da Presidência da República, sobre a sua (não) relação com o BPN. Porque nele tudo é desordem. No plano institucional (público), comunica a partir da sua condição de Supremo Magistrado da Nação. Ora o Presidente da República não pode responder, em Comunicado Oficial, a ‘mentiras’, ‘insinuações’, de que tomou conhecimento por meio de ‘contactos estabelecidos por jornalistas’. Que se saiba, ninguém duvida da honradez de Cavaco Silva, Presidente da República.

Mas a desordem reside, mais concretamente, no facto de sermos confrontados com um Comunicado do ‘Prof. Cavaco Silva e a sua Mulher‘. Ou seja, uma declaração no âmbito do privado (onde a pequena minudência impera, com detalhes que são, de forma geral, desnecessários e, por isso, pela ideia implícita de ‘quem não deve não teme’, confrangedores). Que se saiba, ninguém duvida da honradez de Cavaco Silva, Cidadão.

O que terá passado pela cabeça do homem ao utilizar, de forma cristalina, o espaço comunicacional proporcionado pelo seu cargo para procurar a reposição de uma honra inquestionada, pertencente à sua vida privada?

Quem falou, neste comunicado? O Presidente Cavaco? O Prof. Silva? Em qualquer caso, seja bem-vindo aos pavores identitários do mundo pós-moderno.

'Estou a ver. Não quer deitar-se um pouco no divã?'

'Estou a ver... Não quer deitar-se um pouco no divã?'


Pantufa Negra

Os cartoons de Luís Faustino, apresentam-nos uma bichana preta com uma ironia ácida, tocando, por vezes, os limites do nonsense. Retomam (utilizando a fotografia digitalmente trabalhada) uma perspectiva que me recorda o saudoso ‘Guarda Ricardo‘ de Sam, excepcional série, marcante nas décadas de setenta a noventa, de um artista que transcendia as fronteiras da tira humorística e tinha obra noutros domínios das artes plásticas. Como nada é por acaso, também estes cartoons se publicam no Expresso (edição online, onde podem ser subscritos por correio electrónico), encontrando-se a série no blogue, Cartunes e bonecos. Um dos meus prazeres semanais é receber a ‘Pantufa Negra‘ via e-mail. Aqui se deixa o corrosivo trabalho de sexta-feira, dia 21. Carlos Queiroz é o pretexto para a ironia.

Luis Faustino © www.expresso.pt

Luís Faustino © http://www.expresso.pt

Fotografia do Dia (XVII) – U2 (Sunday Bloody Sunday)

Os U2 em 1983. Sunday Bloody Sunday. O fogo e a bruma. Uma canção que fez de mim um gajo melhor.

(Fotografia inédita, publicada no livro ‘U2: A Diary’ de Matt McGee, Omnibus Press. © Greg Wigler.)

'ganda fumarada, pessoal'

'ganda fumarada, pessoal'

Poesia Portuguesa (IX) – José Tolentino Mendonça

Naquele que penso como o primeiro livro já pleno da sua voz única de poeta, longe não sabia, José Tolentino Mendonça partiu para uma obra que se destaca, com fulgor, no panorama da produção poética da década de noventa. Aqui se deixa o primeiro poema do singelo (e lindo) livro, da colecção forma, da Editorial Presença. Singelos eram os livros, grandes poetas por esta colecção passaram.

OS INCÊNDIOS


Não devias empurrar fogo tão solitário

sob os umbrais de uma morada

nos carreiros que vão dar aos montes

sairás ainda em súplica

quando os incêndios ignorarem a ameaça

da tua vassoura de giestas


a sombra uma vez avulsa

não retorna a mesma


não despertes o que podes calar


José Tolentino Mendonça, in ‘longe não sabia’, p. 9, colecção forma, editorial Presença, Lisboa, 1997

'sequelas' © luis oliveira, Olhares, fotografia online

'sequelas' © luís oliveira, Olhares, fotografia online

Novos Poetas (XXIII) – Catarina Nunes de Almeida

A descoberta da poesia de Catarina Nunes de Almeida (1982), neste seu último livro, A Metamorfose das Plantas dos Pés, despertou muito forte atenção perante a maturidade e a força da poética da autora. Com um livro anteriormente publicado, Prefloração (que não li), Catarina Nunes de Almeida surge como uma voz singular e a ser seguida. De muito perto.

Abriu no colchão as valas possíveis

e enterrou por ordem alfabética

cada parte do corpo: os pêlos

os pântanos as unhas encravadas

e as unhas que outros cravaram pelas coxas.

Estudou cuidadosamente as ondas as horas

para que não restassem dúvidas

sobre os caminhos marítimos

para a noite. Por fim

podou todas as janelas do quarto;

bebeu o vinho;

roeu a carne do quarto

até não sobrar nenhum coração.


Catarina Nunes de Almeida
in ‘A Metamorfose das Plantas dos Pés‘, Porto, Deriva, 2008

'iluminarei a alma' © mariah, olhares, fotografia online

'iluminarei a alma' © Mariah, Olhares, fotografia online