Novos Poetas (XXII) – David Teles Pereira

by manuel margarido

A criatura 2, revista de poesia e prosa poética (seja lá o que isso for, vá lá meter-se em caixotinhos) já saiu há umas semanas. Embrulhadas várias transviaram-me o primeiro exemplar que comprei, pelo que, agora, só há 348 exemplares no mercado (dois estão cá em casa). Deste segundo número falarei aqui, em breve. Enquanto isso, atiço o apetite dos interessados, com um poema de David Teles Pereira, poeta já divulgado neste blogue, e que, numa primeira leitura, me parece uma das vozes mais altas no corpo da criatura. Salva-se da incipiência adolescente com o golpe de asa da ironia.


CARTA DE AMOR


Meu amor, és tão perfeita que por certo não

será um exagero comparar-te a Ofélia.

A água – pensava nela – não tem por que não ser a melhor

das fugas para quem sabe que a morte é um silêncio,

mas que vem de dentro.

Meu amor, diz-me se alguma vez vamos deixar de sonhar

com as sereias que compõem tranças em cabelos ondulados,

ou com rosas que só crescem na superfície lunar

e que não têm espinhos.

Meu amor, os meus cabelos não são de oiro nem de cinza,

são tão pretos quanto os do meu pai, quanto o meu esperma

invocado em sessões de sexo tântrico com as tuas borboletas.

Tenho tanto ciúme do silêncio e daquela vez que o

beijaste no rosto, quando ainda só tinhas vinte e um anos.

Meu amor, o teu crime foi cometido em Lisboa e, por isso,

nunca hás-de ser um Anjo a atravessar os portões do Céu.

Mas não te preocupes,

tenho vários amigos no Inferno, já lá estive um par de vezes,

e, quando voltar, havemos de arranjar forma de nos divertir.

Meu amor, sei que sonho contigo porque o faço

em eclipse total.

Meu amor, faz-me tanta falta a primeira luz do dia.

Quem me dera ter-te para a procurarmos juntos. Acho que me

vou transformar em cisne e chorar a tua queda.

Meu amor, meu amor, as nossas mãos só não estão entrelaçadas

porque tu estás morta. Mas o amor, esse sereno amor, nunca acaba.

David Teles Pereira, in revista Índice nº 2, p. 73, Lisboa, 2008

Ophelia, de John E. Millais

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