As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Sob o signo de Llansol

Com entusiasmo, Helena Vieira, directora da Mariposa Azual e sócia activa (se bem a conheço, hiper-activa) do Espaço Llansol, faz chegar a notícia da evocação de Maria Gabriela Llansol, dia 24 de Novembro, pelas 18 horas, na Biblioteca Municipal de Sintra. É a data de nascimento da escritora que se celebra e serve como convocação do evento, onde serão apresentados dois livros dedicados à sua obra (ver, Programa, abaixo), ambos editados pela Mariposa Azual, na nova colecção, já aqui anunciada, Rio Da Escrita. Como não é todos os dias que podemos encontrar Gonçalo M. Tavares e José Tolentino Mendonça comentando obras de João Barrento e de Maria Etelvina Santos, (havendo ainda lugar à leitura de fragmentos dos Cadernos Inéditos a cargo de Hélia Correia, Gonçalo M. Tavares e José Tolentino Mendonça, sendo que os próprios autores das suas obras falarão, estamos perante um acontecimento cultural que deve ser acompanhado e, de preferência, presenciado. A entrada é livre. Não me consta que haja croquetes e tapas, com copinhos de porto e sumo de laranja. Se assim for, ainda bem. Se houver, olha…

PROGRAMA

MARIA GABRIELA LLANSOL
Um Lugar e um legado

Sessão evocativa e lançamento de livros
Biblioteca Municipal de Sintra
24 de Novembro de 2008, 18 h.

• João Barrento: «Llansol entre nós»
• Maria Etelvina Santos: «M. G. Llansol – Um registo de vida»
• Leitura de fragmentos dos Cadernos inéditos por
Hélia Correia, Gonçalo M. Tavares e José Tolentino Mendonça,
• O espólio de Maria Gabriela Llansol: uma visita virtual

• Helena Vieira apresenta a Mariposa Azual
• Apresentação dos livros da nova colecção «Rio da Escrita»,
da editora Mariposa Azual:

• Como Uma Pedra-pássaro que Voa. Llansol e o improvável da leitura

de Maria Etelvina Santos, por José Tolentino Mendonça

• Na Dobra do Mundo. Escritos LLansolianos, de João Barrento,

por Gonçalo M. Tavares

(APOIO: Câmara Municipal de Sintra)

'Na Dobra do Mundo. Escritos Llansolianos'. João Barrento

'Na Dobra do Mundo. Escritos Llansolianos' - João Barrento

'Como uma pedra pássaro que voa' - Maria Etelvina Santos

'Como uma pedra-pássaro que voa' - Maria Etelvina Santos


Novos Poetas (XXII) – David Teles Pereira

A criatura 2, revista de poesia e prosa poética (seja lá o que isso for, vá lá meter-se em caixotinhos) já saiu há umas semanas. Embrulhadas várias transviaram-me o primeiro exemplar que comprei, pelo que, agora, só há 348 exemplares no mercado (dois estão cá em casa). Deste segundo número falarei aqui, em breve. Enquanto isso, atiço o apetite dos interessados, com um poema de David Teles Pereira, poeta já divulgado neste blogue, e que, numa primeira leitura, me parece uma das vozes mais altas no corpo da criatura. Salva-se da incipiência adolescente com o golpe de asa da ironia.


CARTA DE AMOR


Meu amor, és tão perfeita que por certo não

será um exagero comparar-te a Ofélia.

A água – pensava nela – não tem por que não ser a melhor

das fugas para quem sabe que a morte é um silêncio,

mas que vem de dentro.

Meu amor, diz-me se alguma vez vamos deixar de sonhar

com as sereias que compõem tranças em cabelos ondulados,

ou com rosas que só crescem na superfície lunar

e que não têm espinhos.

Meu amor, os meus cabelos não são de oiro nem de cinza,

são tão pretos quanto os do meu pai, quanto o meu esperma

invocado em sessões de sexo tântrico com as tuas borboletas.

Tenho tanto ciúme do silêncio e daquela vez que o

beijaste no rosto, quando ainda só tinhas vinte e um anos.

Meu amor, o teu crime foi cometido em Lisboa e, por isso,

nunca hás-de ser um Anjo a atravessar os portões do Céu.

Mas não te preocupes,

tenho vários amigos no Inferno, já lá estive um par de vezes,

e, quando voltar, havemos de arranjar forma de nos divertir.

Meu amor, sei que sonho contigo porque o faço

em eclipse total.

Meu amor, faz-me tanta falta a primeira luz do dia.

Quem me dera ter-te para a procurarmos juntos. Acho que me

vou transformar em cisne e chorar a tua queda.

Meu amor, meu amor, as nossas mãos só não estão entrelaçadas

porque tu estás morta. Mas o amor, esse sereno amor, nunca acaba.

David Teles Pereira, in revista Índice nº 2, p. 73, Lisboa, 2008

Ophelia, de John E. Millais

Ophelia, de John E. Millais