Novos Poetas (XXI) – Tiago Araújo

by manuel margarido

Ainda extracção do número zero da revista Índice, este poema de Tiago Araújo (1973), com origem no livro Diaspositivos, edições quasi. Poema dos sentidos, convocando toda a paleta sensorial, a sua inquietação. Um ‘piscar de olhos’ em referência a Herberto Hélder, consubstanciado num verso.


Madrugada


Clorofórmio no alcatrão

A cama negra

Se nos deitarmos sobre nós o hálito

das respirações lentas

Se continuarmos a caminhar amanhece

Corolas sob a luz


Amanhece sobre as algas

Há mares por sobre as praias e vozes por entre

As noites

Há corpos por entre as vozes

E sal em tudo

Água límpida por vezes quando a sombra

ampara a testa

E a luz reflecte a pele que reflecte

A boca

E o sal na boca

E em tudo


Alcatrão na pele e clorofórmio nos lábios

Ser beijado é adormecer


Cintilações sem brilho

A noite nas pétalas abertas o café forte

O ruído das máquinas nos passos em volta


Não pode haver prazer sem luz.

Tiago Araújo, in revista Índice nº 0, p. 47, Mariposa Azual, Lisboa, 2008

'dá-me a tua mão por cima das horas' © mariah, Olhares, fotografia online

'dá-me a tua mão por cima das horas' © mariah, Olhares, fotografia online