Gaja nua XXX

by manuel margarido

Ci, pois claro)

Seria falso o espanto, pueril a indignação, labrego o desconhecimento dos vasos comunicantes na web. Mas ainda assim, chateia-me um bocadinho que o post anterior, com um belíssimo poema de António Osório, tivesse, até agora, seis vezes menos visitas que o post que o antecede, com uma belíssima foto de Julia Ormond. É da natureza humana e eu sou parvo? Certamente. Julia Ormond tem um rosto de enorme carga poética? António Osório concordaria, estou em crer. Mas o poema, senhores, tem pelo menos tanta fundura como o olhar de Julia. Não digo que tem mais. Não digo que tem menos. O equivalente, está bem?

Haverá um marketing de guerrilha para ‘vender’ poemas? Suponho que esta questão não seja nada estranha a quem mantém blogues. Suspeito mesmo que seja familiar. Mas eu meti-me nisto faz pouco. Desbravo, em consequência. Experimente-se, portanto, a paródia. Utilize-se o título deste post mais uns tags criteriosos. E deixemos, ‘como quem não quer a coisa’, um belo poema de António Osório,  ‘erótico’ ainda por cima. O feitiço joga com o feiticeiro. A busca brinca com o motor. Talvez este poema seja lido em abundância. Talvez jorrem, caudalosas, poéticas pesquisas. Aguardemos. Darei conta.

*

Claro, o título do post seria: Poesia Portuguesa (VII) – António Osório. Mas poderá ser trocado daqui a umas semanas. Até lá, saberei se intumescentes demandas literárias assaltaram esta ‘entrada’. Como se divertem, as palavras…

NASCENTE


Quando sinto de noite

o teu calor dormente

e devagar

digo: cedro azul,

terra vegetal,

ou só

amor, amor;

quando te acaricio

e devagar

para que não despertes

tomo na mão direita

as duas fontes, iguais, da vida,

procuro a nascente

e adormeço

nela essa mão depositando.


António Osório, Casa das Sementes – poesia escolhida, p. 114, Assírio & Alvim, Lisboa, 2006.

Vénus de Willendorf (c. 25.000 A.C.)

Vénus de Willendorf (c. 25.000 A.C.)