Poesia Portuguesa (IV) – Fernando Assis Pacheco
by manuel margarido
Em 1976 saía do prelo, com a chancela da centelha, editora de Coimbra que chegou a ser marcante na década de setenta, Catalabanza, Quilolo e volta, de Fernando Assis Pacheco (1937 – 1995). Nada mais era que a versão original de Câu Kiên: um resumo, colectânea de poemas em edição de autor (1972), onde os topónimos eram deliberadamente deslocados para um Sueste Asiático em guerra. Mas de África e da guerra colonial o autor falava, da sua jornada pessoal e traumática. E havia que enganar a Censura. Em 1976, porém, já não era necessário. Os nomes dos lugares foram repostos. Mais que um libelo contra a guerra, era a poesia de Fernando Assis Pacheco que se destacava na sua grande liberdade formal, na intensidade emocional. O escritor afirmava, com alguma frequência, ‘não levar a sério’ o resultado do seu trabalho poético, até por respeito a poetas que considerava maiores. Relida contemporaneamente, a obra de Assis Pacheco (disposta em poesia, romance, crónicas) é cada vez mais conhecida. E valorizada.
(Nota: a página da Wikipédia relativa ao autor contém erros, entre os quais o nome da obra referida, da qual se recolheu este poema. À falta de melhor, mesmo assim ligo-a em hiperlink).
A EPOPEIA
Multa quoque et bello passos
VIRGÍLIO
Mas. Sobrevinha o sono.
E porém. Último
entre todos adormecia
porque. Aqui entra
uma explicação. Ao
fundo do quarto
comum estava posta
poisada. Isto é. Dentro
da bota uma granada
espoletada. Ou seja.
Pronta a mandar hein?
tudo para as malvas
(glg, a boca seca).
De onde eu ficar
sempre um pouco mais.
Pensando em coisas.
Como seja. Sem
o f. da p. saber
esconder-lhe um dia
a bota. A granada.
Sob o travesseiro!
Fernando Assis Pacheco, Catalabanza, Quilolo e volta, p. 37, centelha, 1976.

"(...) poisada. Isto é. Dentro/ da bota uma granada (...)"


