Obama – A vitória pós-racial

by manuel margarido

A vitória de Barack Obama não significa que a América ultrapassou a questão racial. Confirma que ela já estava ultrapassada. Obama não superou a questão étnica. Revelou que ela passou a ser secundária. Ele é o primeiro presidente americano pós-étnico.

As alterações sociológicas ocorridas nos Estados Unidos na última década são mais expressivas na vitória do candidato Democrata, se analisadas qualitativamente, que a avaliação quantitativa do impressionante resultado eleitoral. Quem votou maioritariamente em Barack Obama? Os seguintes grupos sociais: ‘menos de 45 anos’; ‘negros’; ‘hispânicos’; ‘independentes’; ‘moderados’; ‘maiores rendimentos’; ‘mulheres’; ‘mulheres brancas’ (há sondagens para todos os filtros!). Em que grupos perdeu?  Nos ‘homens brancos’ (por pouco, sendo que nunca algum candidato Democrata ganhou este grupo); ‘idosos’; ‘cristãos evangélicos’; ‘conservadores’, ou seja, a base mais profunda do partido Republicano. Talvez não seja possível, a partir de agora, falar em ‘estados vermelhos’ (R), ‘azuis’ (D) e ‘swinging states’. Há já quem fale em ‘purple states’.

O Colorado é um caso paradigmático. Tradicionalmente um sólido bastião republicano, deu a vitória a Obama. Pelo seu carisma? É possível. Mas, na última década, estabeleceram-se sólidas comunidades cosmopolitas em Denver, Boulder, Aspen e um pouco por todo o território. A população é constituída por 75% de brancos. So what? Este é o terceiro estado com maior crescimento populacional, em grande parte graças à migração da Califórnia (para fugir aos impostos) e à emigração, sobretudo hispânica.

Provavelmente a grande mudança política prometida por Barack Obama, o seu lema traduzido numa única palavra – change – já se dera no plano das mentalidades. Só faltava um catalisador. Nesse sentido, Barack Obama foi o homem certo num tempo histórico maduro para a sua mensagem. Talvez Obama tenha vencido tanto pela ‘questão Economia’ como pelas mutações sociológicas. Talvez o clamoroso fracasso de dois mandatos de George W. Bush seja o resultado inevitável de uma visão de um mundo que já é outro. E é esse mundo outro que vai exigir ao novo presidente um desígnio homérico: dar corpo aos seus sonhos.

'E agora? Grande sarilho!'

'E agora? Grande sarilho!'