Novos poetas (XX) – Diogo Vaz Pinto

by manuel margarido

Diogo Vaz Pinto, poeta, director da criatura (com Ana M. P. Antunes e David Teles Pereira), já tinha captado atenção com os seus poemas, publicados naquela revista. Uma voz que parte de uma feroz  enunciação do real para a procura de uma ascensão, de uma realidade outra, que se sugere em torno da Poiesis, da luta por uma ‘imortalidade’ alcançável na beleza, através da possibilidade da escrita. Mas esta acaba por ser questionada enquanto locus salvífico, numa tonalidade irónica, mordaz, como se, entre a realidade e a idealização, se ficasse sempre a meio caminho. Este poema parece particularmente seguro e conseguido, no contexto e na definição do trabalho do autor (que pode ser lido, entre outros autores, no blogue que dinamiza colectivamente, O Melhor Amigo).

Nevralgias

Quero uma poesia que mate.

LeRoi Jones


Estamos a dormir e a sonhar que acordámos
com os nervos ligados
a uma bateria de imagens coléricas,
pólvora enrolada na língua
e dedos recriminadores apontando tudo,
dedos enfiados bem fundo na garganta, nessa ferida absurda.

Já tive oportunidade de dizer-te que sou um animal obcecado,
que faço o olhar descer como a noite pelas costuras
no vestido de senhoras sentadas a uma hora destas,
lendo bestsellers nos cafés mais demorados
de Lisboa. Posso agora acrescentar que perdi toda a esperança
de vir a ser recolhido nas suas mãos e de ser acarinhado
nesses regaços, a não ser
que sejam elas a mudar de ideias,
que lhes suba ao espírito um fervor demencial
e rasgando o ventre dêem à luz um eloquente suicida.

Estamos eu, tu, estamos todos à espera
de uma criança em chamas que venha fazer letra morta
dos discursos que nos afogam, de todos os poetas já nacionalizados
e da exausta metafísica que nos gela o sangue.
Essa criança tarda em vir, se calhar calou-se à nascença,
seja como for
não nos resta outra coisa senão chamar mais alto.
Enquanto não vem
vamos nós saindo de chinelos para o cosmos,
em busca desse electro-choque experimental, o texto-motor
que nos vai servindo de exercício e passatempo.

À noite deixo a luz do corredor acesa e a porta do quarto
entreaberta,
não por medo do escuro, mas para conduzir
os demónios aos meus sonhos.
Quero acordar inspirado, há que erguer uma obra
nem que seja só para depois vê-la arder.
Morrer para ela – ainda que vivas –,
ainda que depois de estar escrita a última linha,
permaneças à margem e não te deixes convencer.

Diogo Vaz Pinto, in blogue ‘O Melhor Amigo’ (http://omelhoramigo.blogspot.com/), Segunda-feira, Novembro 03, 2008


le poids de l'innocence © honey, Olhares, Fotografia online

le poids de l'innocence © honey, Olhares, Fotografia online