Novos poetas (XIX) – José Miguel Silva

by manuel margarido

Segundo poema de José Miguel Silva, publicado na Telhados de Vidro (número 10), sob o título Volta ao Mundo (o primeiro pode ser encontrado no arquivo, em 27 de Outubro). Poema sobre a possibilidade de uma voz. Delimitação de um território poético. Proposição e afirmação. E recusas, para serem entendidas. Atendidas.

2.

Mas que resta para ver ou comentar

nesta feira pecuária, perguntas,

recordando como tudo já foi dito

vinte vezes por cabeça, e repetir

repetições é engodar ritualmente

a esperança. Mas o próprio silêncio

é uma pose, e bem pouco original.

De resto, quem da poesia colhe

o benefício do lamento ou esconjuro,

tem direito à inestética dum «foda-se!»

sonoro quando a sanha do martelo

lhe desaba em pleno dedo. Que querias?

Que calasse o prejuízo na cordura

dum esgar arranjadinho, decoroso?

(Ou pior: que adubasse num sim-sim

de pechisbeque o subarbusto da penúria?)

Que diabo, mas será que só os ricos

é que podem vestir mal?

José Miguel Silva, in revista Telhados de Vidro nº 10, p. 24, Averno, Lisboa, Julho de 2008

Profecy © Rui V., Olhares, Fotografia online

Profecy © Rui V., Olhares, Fotografia online