As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

The Great American Songbook (XVI) – It Might as Well Be Spring

A esta hora já os americanos estão a ocorrer às urnas – já o fazem desde há algum tempo, de resto, graças ao ‘peculiar’ sistema eleitoral norte-americano. Não restam grandes dúvidas que os índices de abstenção terão um mínimo assinalável, num universo em que apenas 75% dos cidadãos com capacidade eleitoral estão ‘registados’ como eleitores. Votarão com esperança, como dizia um comentador ontem, na All Jazeera, cadeia televisiva que tem feito uma notável abordagem da campanha, apanhando sempre os aspectos mais analíticos, não seguindo o modelo espectacular da CNN. A esta hora votam, repito, com esperança. Mais: com um desejo de salvação personificado num homem. Ora não será este homem – seja qual for o eleito – um fazedor de milagres. Esperam-no grandes trabalhos para corresponder minimamente ao que, maximamente, dele se aguarda. É um trabalho de elevado risco este: em pleno Inverno fazer aparecer a Primavera.

*

It Might as Well Be Spring. Em 1945, ano de Primavera, após o longo Inverno da Guerra, a dupla Rodgers e Hammerstein escrevem esta canção para o filme State Fair, com ela ganhando o ‘Óscar para a Melhor Canção‘. Muitas versões, mas de novo Nina Simone arrebata o troféu do meu gosto. E de novo com uma imagem em still, o que pode até ser bom para apenas ouvir. Um ‘apenas’ que não é pouco.

Novos poetas (XIX) – José Miguel Silva

Segundo poema de José Miguel Silva, publicado na Telhados de Vidro (número 10), sob o título Volta ao Mundo (o primeiro pode ser encontrado no arquivo, em 27 de Outubro). Poema sobre a possibilidade de uma voz. Delimitação de um território poético. Proposição e afirmação. E recusas, para serem entendidas. Atendidas.

2.

Mas que resta para ver ou comentar

nesta feira pecuária, perguntas,

recordando como tudo já foi dito

vinte vezes por cabeça, e repetir

repetições é engodar ritualmente

a esperança. Mas o próprio silêncio

é uma pose, e bem pouco original.

De resto, quem da poesia colhe

o benefício do lamento ou esconjuro,

tem direito à inestética dum «foda-se!»

sonoro quando a sanha do martelo

lhe desaba em pleno dedo. Que querias?

Que calasse o prejuízo na cordura

dum esgar arranjadinho, decoroso?

(Ou pior: que adubasse num sim-sim

de pechisbeque o subarbusto da penúria?)

Que diabo, mas será que só os ricos

é que podem vestir mal?

José Miguel Silva, in revista Telhados de Vidro nº 10, p. 24, Averno, Lisboa, Julho de 2008

Profecy © Rui V., Olhares, Fotografia online

Profecy © Rui V., Olhares, Fotografia online

Fotografia do Dia (XIII) – DDiArte

Já trouxera aqui um trabalho desta dupla de fotógrafos madeirense (em ‘diálogo’ com um poema de Hugo Milhanas Machado). Mas a obra que produzem merece destaque particular. No jogo sempre ambíguo entre uma estratégia de produção pelo acto criador motivada, e a lógica da encomenda comercial, Diamantino Jesus (n. 1969) e José Diogo (n.1966) chegaram a uma linguagem própria marcante, com um domínio superior das diversas técnicas utilizadas e um equilibrado sentido da composição, tendo o corpo humano como tema. Uma resenha biográfica e crítica pode ser encontrada no site da Colecção Berardo, que adquiriu um importante conjunto de obras dos autores, que nele podem ser apreciadas. O colectivo DDiArte tem sido, nos anos mais recentes, premiado por diversas entidades e publicado em revistas internacionais de referência no domínio da fotografia.

Dançando com o azul © DDiArte

Dançando com o azul © DDiArte