Novos poetas (XVII) – Miriam Reyes

by manuel margarido

Não sendo portuguesa (Ourense, 1984), Miriam Reyes é conhecida e publicada em Portugal (alguns dos seus poemas circulam na net). Autora de três obras – Espejo Negro (2001) – Bella Durmiente (2004) – Desalojos (2008), convoca, na sua escrita poética, uma espessura física, orgânica, com uma crueza nos limites da ironia, da raiva, do íntimo despojamento. Poemas fortes, poemas de fêmea (expressão politicamente incorrecta, eu sei, mas não me perdoaria escrever ‘poemas feministas’, ou ‘poemas de mulher’).  Reproduz-se um poema publicado no número 2 da revista Sulscrito, já referida em posts anteriores. Pertence a Espejo Negro. A autora tem recente edição portuguesa na Cosmorama Edições, Terra e Sangue (belíssima capa!), que reúne Espejo Negro e Bella Durmiente, com tradução, respectivamente, de Jorge Melícias e Pedro Sena-Lino.

Aqui o poema original, seguido da sua tradução.

Eventualmente paso días enteros sangrando
(por negarme a ser madre).
El vientre vacío sangra
exagerado e implacable como una mujer enamorada.

Si los hijos no salieran nunca
del cuerpo de sus madres
juro que tendría uno ahora mismo,
para sentirlo crecer dentro de mí
hasta poseerme como en una sesión espiritista
o como si mi bebé y yo
fuéramos muñecas rusas
una llena de la otra
mamá llena de bebé.

También tendría un hijo
si ellos siempre fueran bebés
y pudiera sostenerlo en mis brazos por encima de la realidad
para que mi niño nunca pusiera los pies en la tierra.

Pero ellos llegan a ser
tan viejos como uno.

No alimentaré a nadie con mi cuerpo
para que viva este suicidio en cuotas que vivo yo.

Por eso sangro y tengo cólicos
y me aprieto este vientre vacío
y trago pastillas hasta dormirme y olvidar
que me desangro en mi negación.


Eventualmente passo dias inteiros sangrando

Eventualmente passo dias inteiros sangrando
(por negar-me a ser mãe).
O ventre vazio sangra
exagerado e implacável como uma mulher enamorada.

Se os filhos não saíssem nunca
do corpo das suas mães
juro que teria um agora mesmo
para senti-lo crescer dentro de mim
até me possuir como numa sessão espírita
ou como se o meu bebé e eu
fossemos bonecas russas
uma cheia da outra
mamã cheia de bebé.

Também teria um filho
se eles fossem sempre bebés
e pudesse sustê-lo em meus braços acima da realidade
para que o meu menino nunca pusesse os pés na terra.

Mas eles chegam a ser
tão velhos como qualquer um.

Não alimentarei ninguém com o meu corpo
para que viva este suicídio em cotas que eu vivo.

Por isso sangro e tenho cólicas
e aperto este ventre vazio
e engulo comprimidos até adormecer e esquecer
que me esvaio na minha negação.

Tradução de Jorge Melícias.

Terra e Sangue © Miriam Reyes, Cosmorama Edições

Terra e Sangue © Miriam Reyes, Cosmorama Edições

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