As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Outubro, 2008

Poesia Portuguesa (I) – Vitorino Nemésio

O post desta madrugada, sobre a eleição nos Açores, levou-me a falar, de viés, no nome de Vitorino Nemésio (1901 – 1978). Acabei de escrever e fui lê-lo. De novo  o deslumbre. E assim, por portas travessas, se abre aqui uma nova série de posts, onde editarei alguma da poesia que mais aprecio, centrando-me na segunda metade do século que passou. Como de costume, sem grandes balizas, que não as do gosto. Nemésio! Quem lê hoje este mago da língua poética, senhor de uma alegria que se confundiria com leveza, não fora a explosão emocional, reflexiva, linguística, erótica, e mais, e mais… que a sua escrita faz acontecer?

A CAMINHO DO CORVO

À Maria Gabriela e ao Rodrigo,

primos filiais


A minha vida está velha

Mas eu sou novo até aos dentes.

Bendito seja o deus do encontro,

O mar que nos criou

Na sêde da verdade,

A moça que o Canal tocou com seus fantasmas

E se deu de repente a mim como uma mãe,

Pois fica-se sabendo

Que da espuma do mar sai gente e amor também.

Bendita a Milha, o espaço ardente,

E a mão cerrada

Contra a vida esmagada.

Abençoemos o impossível

E que o silêncio bem ouvido

Seja por mim no amor de alguém.

25.7.1969

Vitorino Nemésio, in Sapateia Açoriana, Andamento Holandês e outros poemas, p.13, Arcádia, Lisboa, Julho de 1976

Ponta do Marco, Ilha do Corvo © Gerbrand Michielsen

Ponta do Marco, Ilha do Corvo © Gerbrand Michielsen

Eleição nos Açores – Morituri te salutant

O PS acaba de vencer a Eleição para a ‘Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores‘ com maioria absoluta (49,98% apurados às 01h33m de hoje – dados fornecidos no Público, edição online). Nada de extraordinário. Dir-se-ia mais: um não acontecimento. As eleições nos Açores são, ao contrário do que pensamos com os olhos de Lisboa, muito diferentes, por exemplo, do que se passa na Madeira, onde se está perto de uma situação de ‘caciquismo’ plebiscitado. Nos Açores há que fazer trabalho político. E, sobretudo, ter prestígio e saber lidar com uma realidade muito mais complexa, com matizes que só quem conhece bem o arquipélago, decifra. Carlos César soube, desde há 12 anos (e muita política de bastidor deve ter feito antes de chegar ao poder), estabelecer pontes com as diversas sensibilidades, os poderes fácticos, as forças locais, com a intelligentsia de cada ilha, com o povo de cada ilha.Como Mota Amaral o houvera feito.

Importa não esquecer dois factos que, nestas ocasiões, nunca vêm à colação: os Açores têm, historicamente, uma elite política, social e cultural com peso. De lá vieram Vitorino Nemésio, Natália Correia, para não falar de Onésimo Teotónio Almeida entre tantos outros. E isto só no século XX. A Câmara Municipal de Lages do Pico, por exemplo, financia uma revista de poesia, a Magma, de notável qualidade e contemporaneidade. Quantas Câmaras Municipais se podem gabar do mesmo no Continente? E na Madeira?

A segunda ‘infusão’ relevante que a história nos permite perceber é que essas mesmas elites têm uma forte tradição liberal e um sentimento de ‘portugalidade’ completamente distinto da Madeira. Não é por acaso que a ‘FLA‘ não passou de um ‘epifenómeno’, enquanto que, nas ‘jardinescas’ ilhas, o fantasma da ‘independência’ ainda paira no discurso político, não como figura de retórica, mas com o peso que tem tudo o que assusta. Não nos esqueçamos que é a partir dos Açores, e com o apoio dos grandes do arquipélago, de ingleses às costas, que D. Pedro parte ao assalto do poder em Lisboa, na Guerra Civil que opôs Miguelistas a Liberais.

Irrelevâncias? Só quem não conhece a realidade açoriana, de fundos contrastes sociais – que Carlos César , honra lhe seja feita, tem, progressivamente, vindo a esbater, ainda que numa escala limitada – de identidades e rivalidades surdas entre diversas ilhas, é que não percebe que, nos Açores, para ganhar, é preciso fazer política. A sério. Capaz de unificar sem mexer nas singularidades e nos poderes de facto. Não é a mesma coisa ser do Faial ou de Santa Maria, de são Miguel ou do Corvo. O PS (e Carlos César) ganharam pela primeira vez nas nove ilhas. Não deixa de ser um feito.

Perante isto, o PSD tinha uma missão impossível. Bem o percebeu Manuela Ferreira Leite, que não pôs os pés nos Açores durante a camapanha. O único líder partidário que não foi lá. Erro? Nem por isso. No arranque de um ano com um ciclo eleitoral pesado e decisivo para ela (e, quem sabe, se para o PSD como o conhecemos), o pior que lhe podia acontecer era começar associada a uma derrota inevitável. Assim, os desgraçados militantes do PSD poderiam dizer, durante a campanha, o que os gladiadores diziam a César antes dos embates. ‘Ave Caesar, morituri te salutant‘ (Avé César, os que vão morrer te saudam!). Costa Neves, líder do PSD Açores, já se demitiu. Foi o primeiro a cair. César nem precisou de baixar o polegar. Basta-lhe gerir mais um mandato. E as verdadeiras ‘ilações’ nacionais desta eleição não são aquelas que, por oportunidade, Ferreira Leite e Sócrates trocaram (tipo galhardetes). Serão as que decorrerem do que César, Carlos, planeia fazer daqui a quatro anos.

A Eleição nos Açores estará amanhã em debate na Rádio Comercial, entre as 23h e as 23h30m, no programa «Ao Fim do Dia», na Rádio Comercial, onde travarei amistoso diálogo com João Villalobos, do Corta-Fitas, que não conheço pessoalmente, mas promete conversa entretida. E estendida um pouco mais para Oeste do Atlântico. Na outra margem do Oceano, outras eleições convocam outras paixões.

Ilhéu de Vila Franca do Campo, São Miguel

Ilhéu de Vila Franca do Campo, São Miguel

Fotografia do Dia (VII) – William Claxton (1927-2008)

Aos 80 anos, morre William Claxton, notabilizado como fotógrafo de celebridades ligadas ao meio musical e, em particular, ao Jazz. Será um rótulo. Mas não deixa de ser admirável a invulgar capacidade técnica do artista colocada ao serviço de uma estilística solta, em movimento, improvisada. Jazzística, então. Logrou, ao longo da sua extensa carreira, composições de grande qualidade e rigor estéticos. Era, por isso, respeitado. No Guardian (edição online de hoje), prestam-lhe tributo, num belo artigo, a que se soma uma pequena galeria demonstrativa do seu trabalho). Mas é no site do fotógrafo que podemos ter uma ideia mais precisa(osa) da sua obra. Veja-se. É uma homenagem.

Chet Baker em Los Angeles, 1954 © William Claxton/AP

Chet Baker em Los Angeles, 1954 © William Claxton/AP

RCA Secret Postcard

A ideia é genial, os resultados equivalentes. Em 1994, o Royal College of Art encontrou uma forma originalíssima e cheia de espírito para angariar fundos que permitissem apoiar (financeiramente, claro está) os jovens talentos da instituição: o RCA Secret Postcard. Trata-se de um esquema simples e brilhante: solicitar tanto a artistas consagrados do calibre de David Hockney, Damien Hirst, Julian Opie, Tracey Emin, Paula Rego, entre muitos outros ao longo dos anos, como a designers e figuras públicas destacadas (Stella McCartney, Giorgio Armani, David Bowie, etc.) e, finalmente, a jovens artistas  ‘graduated‘ que produzam uma obra de arte, com duas condicionantes: ter o formato de um postal; ser anónima até à sua venda. Assim, todos os anos, cresceu o número de interessados (agora fazem-se filas de espera pela madrugada) e o número de criadores (que ascende actualmente a mais de 1.000). O sainete da história é que: os compradores interessados só podem adquirir os postais (cada um deles em venda por 40 libras) no local, no próprio dia, sem saberem o nome do autor. É assim que, guiados pelo gosto – ou por um apurado faro – alguns felizardos compraram já postais posteriormente leiloados por mais de 10.000 libras. O RCA Secret Postcard já rendeu à instituição, até este ano, em que se comemoram os 15 anos do evento, mais de um milhão de libras, entregues ao Royal College of Art Fine Art Student Award Fund. Nesta galeria apaixonante, divulgada online pelo The Independent, podemos ver uma retrospectiva de postais famosos e de alguns dos que estarão a leilão em 22 de Novembro. Uma ideia destas era capaz de dar jeitaço à Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Nem era tanto pelo dinheiro. Era pelo buzz, pela animação, pela possibilidade promissora de mostrarem que estão vivos.

© Peter Doing

© Peter Doing

Um Secret Postcard, da autoria de Peter Doing, leiloado amanhã, 20 de Outubro, na Sotheby’s. Espera-se que atinja as 15.000 libras.

The Great American Songbook (X) – Over the Rainbow

Quase 48 horas após o último debate na corrida para as presidenciais americanas, já tudo foi escrito, ou dito. Não há fonte que não tenha dado a vitória a Barack Obama. Não há artigo, peça televisiva, coluna de opinião, blogue, que não se refira ao episódio ‘Joe the Plumber’, personagem trazida para o debate por John McCain de forma teatral (e melhor conseguida do que se pensa). Aliás, durante a primeira meia-hora, McCain esteve no seu melhor. E este foi o seu debate mais forte. To make or break, lembram-se? Mas, com o decurso dos minutos, tornou-se evidente a verdadeira vantagem de Obama: pode permitir-se a não dizer grandes coisas, pode dar-se ao luxo de apenas debitar, com estilo, as suas ideias. A diferença está toda na sua mais que convincente imagem, aliada às ideias, numa conjunção virtuosa. A diferença entre um tipo que faz a diferença e um tipo que se debate com a semelhança. Obama já está noutra esfera. A conjuntura económica faz o resto. No final, o director da campanha republicana abanava a cabeça. Perguntaram-lhe se a performance de McCain chegava para ganhar. «Sim», disse. E acrescentou, significativamente: «Chega para ganhar o debate». Nem isso. Para MaCain a vitória é, agora, um pote de ouro no fim do arco-íris.

*

Over the Raibow. Somewhere, no final dos anos 30, Harold Arlen e E.Y. Harburg escreveram o tema para o filme O Feiticeiro de Oz, um clássico que vingou na voragem do tempo para chegar ao que hoje todos sabemos: uma conjunção virtuosa de história, encantamento, música e muita Judy Garland. E esta é a canção dela, tal como ela é, em certa medida, esta canção.

Manuela, Santana e as muralhas…

Todo o processo que conduziu à ‘eleição’ de Pedro Santana Lopes (que tem um blogue, como direi, ‘imperdível’) para putativo candidato do PSD ao cargo de presidente da Câmara Municipal de Lisboa nas próximas eleições autárquicas, processo esse levado a cabo pela ‘Distrital de Lisboa’, um digníssimo  órgão na estrutura do PSD que alegremente apoiou Alberto João Jardim para candidato à  Presidência do partido no último Congresso, tendo-se visto livre de batata tão quente porque o vice-rei da Madeira não se apresentou à liça) tem contornos de uma estranheza sem remédio. Ente o ‘diz-que-disse’ e o ‘por-não ter-dito-nada-ela-disse-tudo’; entre o silêncio de Manuela Ferreira Leite sobre o assunto e as conversas que (incrivelmente) aceitou ter com Lopes, é o PSD no seu pior que regressa. Ora, independentemente do que venha a dizer ou decidir, Ferreira Leite já está a perder. Abriu mais um espaço de conflitualidade interna, quando se esperava vê-la como um líder acima de guerras intestinas; alimentou o jogo das facções, dos barões, das eminências, quando se esperava dela todas as atitudes para acabar, progressivamente, sem transigência, com um partido feudalizado.

Se tinha como objectivo, ao ‘conversar’ com Santana Lopes, trazer o inimigo para dentro das muralhas, Manuela fez mal. Era suposto que, com ela, o PSD deixasse de ser um partido acastelado. Era suposto o PSD olhar para o país, em vez de continuar a coçar a sarna.

'seduzi-a... eh, eh!'

'seduzi-a... eh, eh!'

Fotografia do Dia (VI) – Fabio Bórquez

A história desta fotografia (e de muitas de Fabio Bórquez), é a história de um acto de censura, meticuloso, organizado e reiterado. O Flickr – serviço/comunidade de partilha de imagens do Yahoo – embirrou com o trabalho do fotógrafo argentino (por considerá-lo ‘inapropriado’). O que se seguiu foi uma trama absolutamente ‘kafkiana’, no requinte dos detalhes e nas peripécias do processo. Deliciosos são os argumentos esgrimidos para definir ‘inapropriado’. E  muito imaginativo o processo de ‘guerrilha’ que o fotógrafo encetou. Para quem ainda alimenta esperanças na Web como espaço de liberdade de expressão, basta ler o enredo, na edição digital do El País de hoje. Depois, claro, por maioria de razão, visitar o blogue de Fabio Bórquez.

'querido, estamos tramados, esqueci-me de ir à depilação!'

'querido, estamos tramados, esqueci-me de ir à depilação!'

Novos Poetas (XIII) – Daniel Jonas

Contagioso. Sonótono é contagioso. Depois do primeiro poema do livro, aqui deixo o segundo (ciente de que não os deverei divulgar todos, por muitos serem, e haver direitos de autor, e ser sempre melhor ler o livro, no livro, no papel, com as folhas na polpa dos dedos). De novo os 14 versos do soneto, sendo que, neste belíssimo poema, o título é já verso. E que verso, interpolando, a partir da casualidade fonética, a semântica que decorre dos nomes da Lisnave, de Luís Miguel Nava, explorada com destreza e brilho.

Os dois últimos versos são recolhidos (tal como em todos os poemas do livro, falhou aqui a formatação, no poema anterior).

COMO UM METALÚRGICO DA LUÍSNAVA

Que uma musa metálica redime

E faz dum vulcão cama e os lençóis lava,

Soldo a métrica, malho p’ra que rime.

Toco a afiada lira, tanjo o meu aço,

Na homérica bigorna chispa e liça.

Silvam sereias, chamam-me ao regaço,

Ítaca estanca a dor, Ática atiça-a.

Como operário do verso blindo a nave

Que ao leme outro almirante levará;

Levo-me a mim à vela, o argueiro é trave:

Neste solo outro mastro cantará.

E se o cálamo às vezes carpe as bulhas

Das carúnculas saem-me faúlhas.

Daniel Jonas, in Sonótono, p. 12, Cotovia, 2007

'Não sei do que é que estou à espera' © Mariah, Olhares, fotografia online

'Não sei do que é que estou à espera' © Mariah, Olhares, fotografia online

Fotografia do Dia (V) – Colin Powell

É General. É Republicano. É Velho (ah, politicamente incorrecto, devia dizer Idoso). Mas é negro (perdão, afro-americano). Por isso, he knows the moves! (ah, politicamente incorrecto, ainda vão achar racista).

No inevitável The First Post.

'I like this way, Bro...'

'I like this way, Bro...'

Former US Secretary of State Colin Powell (centre) dances with Nigerian hip-hop artist Olu Maintain (left) at the Africa Rising Festival at London’s Royal Albert Hall

Rectificação

Entendo os blogues como um meio de expressão (singular, colectiva) com características únicas, onde múltiplas vozes, a transversalidade social em todos os azimutes, encontra um espaço e um tempo de manifestação próprios, marcados em norma por factores identitários e por uma grande amplitude na liberdade de ‘dizer’.

Liberdade essa que conduz, a alguma responsabilidade, a uma ética que confira credibilidade à voz que se exprime. As palavras pesam. Mesmo na blogosfera. Sobretudo na blogosfera (mais que no “24 Horas“, garanto).

Por isso, desde que iniciei este blogue, tenho procurado, o melhor que sei, encontrar a linha do rigor. Eis senão quando sou confrontado com o facto de ter escrito informação grosseiramente errada no post onde invocava Nuno Moura. Reponham-se já os factos.

A editora Mariposa Azual é propriedade de Helena Vieira, que é fundadora da casa. E não de Paulo Condessa, como referi. De igual forma, foram Helena Vieira e Nuno Moura (fundador da ‘Mariposa’ e, na altura, ainda ligado a ela) os responsáveis pela proeza – o adjectivo ajusta-se a um projecto que afirma “a literatura é uma potência muito pequenina” – de ter publicado a “Obra” de Adília Lopes, com ilustrações de Paula Rego. E é a Mariposa Azual (e, portanto, Helena Vieira, em conjunto com um grupo de ‘cúmplices’) que está na origem da Revista Índice.

Vale a pena visitar o site da Mariposa. E da Índice, cujo número Zero já foi editado e com número Um marcado para Dezembro. Darei também notícias aqui, à medida que as for tendo. É que a infelicidade do erro trouxe a felicidade de um reencontro. Há males que vêm por bem.

Agora o blogue pode continuar.

De luto…

Hoje este blogue está de luto, por falecimento da sensatez do seu autor. Amanhã é outro dia.                      E compreender-se-á a razão.

errare humanum est

errare humanum est

Fotografia do Dia (IV) – Arte de Rua e Graffiti

Barack Obama é o tema desta galeria de fotografias de graffiti e arte de rua, em cidades americanas (Nova Iorque, Boston). A cultura hip hop não esquece as suas raízes políticas.

New York isn’t the only city boasting Obama street art: this mural in Boston, Massachusetts, features a series of portraits which mix Obama’s face with Abraham Lincoln’s. Ron English’s work was commissioned by Gallery XIV

The Great American Songbook (IX) – Ev’ry Time We Say Goodbye

O terceiro e último debate entre os candidatos às Eleições Presidenciais dos E.U.A. é amanhã à noite. Para muitos comentadores, John McCain tem aqui a sua última oportunidade para subir nas sondagens. É um debate ‘make-or-break‘, para os candidatos, dizem eles, ‘ou vai ou racha’, dizemos nós. Uma forma de McCain começar a dizer adeus, digo eu, que tomo partido.

*

Ev’ry Time We Say Goodbye. Cole Porter ainda aqui não tinha chegado, mas entra pela porta grande, com uma canção imortal (1944), amada desde os modestos ouvintes de rádio dos fifties até aos mais apurados gostos ‘jazzísticos’. Para todos os gostos. Sem desprimor para outras versões, aqui fica a mais que lenta e vil solidão que só Nina Simone podia conferir à canção. (não há nada para ver, apenas um still com o que parece ser a capa de um disco. Melhor. Ouça-se, apenas. Não é pouco.)

Grande pândega, Google!

A página de notícias do Google, aquela que podemos configurar, oferece hoje uma verdadeira pérola. Tão pérola que, a ser verdadeira, anima a imaginação. Depois das secções Política, Internacional, Economia, Desporto, etc., vem a secção Entretenimento. Qual é a notícia de cabeçalho? “Os Buraka Som Sistema  são a ‘melhor banda portuguesa’ segundo a MTV?” Nã, demasiado banal, fica para segunda notícia. A grande caixa do Entretenimento, é:  “Contribuintes faltosos podem ver carro ser vendido em leilão“. Entretenimento, está-se a ver. Imagina-se o fartote, nas repartições de Finanças. “É pá, bora lá curtir uma beca e apreender o veículo a este contribuinte malandreco“. Imagine-se o contribuinte relapso: “Eh, eh, venham cá depois do almoço, que assim ainda vos ofereço um Aliança Velha, seus bacanos“. Entretenimento. Google. Pois.

'Bora apreender, o Google diz qué divertido'

'Bora apreender, o Google diz qué divertido'

Dream’s what?

David Geffen e Steven Spielberg zangaram-se com Jeffrey Katzenberg (The little midget, Eisner says). O resultado deu nisto.

O problema eram as orelhas...

O problema eram as orelhas...

The Great American Songbook (VIII) – Ol’ Man River

John McCain é, certamente, uma boa alma. E um valente. O facto de pensar o futuro com as ferramentas do século XX não belisca em nada a sua integridade. Com um partido Republicano cada vez mais acossado, assustado e com vontade de ‘sangue’, McCain fez o que outros não fariam. Defendeu a honra (e, de passagem, o patriotismo) de Barack, perante um grupo de apoiantes que, evidentemente, o assobiaram. Ganhou pontos na consideração de muitos. Vão servir-lhe no futuro, quando Obama mostrar que (também) vai precisar que sirva a nação. E ‘servir’ sempre foi um código de honra na vida do velho Senador.

*

Em 1927, os grandes Jerome Kern, e Oscar Hammerstein II escrevem Ol’ Man River para o musical Show Boat. Ironia: é o cantar de um velho negro, melancólico com a dureza e as agruras da vida. Aqui o temos, na interpretação de Paul Robeson, no filme musical de 1936. Tocante.

Novos poetas (XII) – Daniel Jonas

Prémio Pen Clube de Poesia ex-aequo para Sonótono, de Daniel Jonas (Cotovia) e Segredos do Reino Animal, de Hélder Moura Pereira (Assírio). Já havia encontrado Daniel Jonas (1973) em Os Fantasmas Inquilinos (Cotovia, 2005). A impressão que me causou foi maior. Agora, com Sonótono, este cuspidor do fogo das palavras, que sopra a Língua como quem desfaz dentes-de-leão, espalhando as suas sementes pelos ares, vê o seu trabalho justamente premiado, em conjunto com um poeta já consagrado. Não tenho mérito para tecer juízo crítico. Gosto muito. Outros o fazem, com maior competência, em lugares afectivos e noutros mais críticos (no sentido de crítica literária, entenda-se). O melhor é ler. De preferência acompanhar a obra. Aqui fica um poema de Sonótono, que tem 14 versos. Como um soneto. Mas é um soneto que habita nele, ou é ele que invade o soneto e o desmantela?

BENGALEIRO OU HORACIANAS

Físico o tractor quente arremessou
Contra as colheitas de ouro o breu de corvos
Trazendo a noite em ondas de onde andou
De foice afoita, a luz sugando a sorvos.
Modorrento, o vapor da chaminé,
Máquina de fazer nuvens, levando
Ondinas ao empíreo mar, rapé
Da paz entre titãs que ordenhando
Alheias colinas se houvessem mais
Desavindo. Van Gogh ou Fabergé:
Ovos de palha, gemas siderais
Chocados em estrelado canapé.
Entrar nesta pintura eu queria
Se à entrada não pedissem a poesia.

(Daniel Jonas, in Sonótono, Cotovia, 2007)

campo © Pedro Ferreira, Olhares, fotografia online

campo © Pedro Ferreira, Olhares, fotografia online

The Great American Songbook (VII) – The Lady Is a Tramp

Nem vale a pena contar a história. A esta hora já todos os noticiários a referiram, como mais uma nota de rodapé de uma escolha que se começa a revelar infeliz. Palin é uma crescente dor de cabeça para o ticket republicano e a CNN conta tudo bastante bem. Será a Dama uma Vagabunda?

*

De novo a dupla Rodgers and Hart e o musical Babes In Arms, colheita de onde se extraiu My Funny Valentine. The Lady Is a Tramp confunde-se praticamente com a interpretação de Frank Sinatra. Mas talvez se possa variar, com este delicioso medley de Sammy Davies Jr., de resto um dos protegidos de Sinatra e membro do famoso ‘rat pack‘. Pândega e talento a rodos. Que conjugação, ó Sarah Palin do Alaska! Que ticket!

Fotografia do Dia (III) – Lance Armstrong

A ‘Vuelta‘, nome popular da Volta à Espanha em Bicicleta, foi este ano completamente ofuscada por duas palavras, por uma única manifestação de vontade: “Vou voltar”, disse Lance Armstrong. E de nada mais se falou, nem sequer da histórica proeza de Alberto Contador, o primeiro espanhol e o quinto ciclista da história a ter ganho as três grandes Voltas (França, Itália, Espanha), depois de Jacques Anquetil (1963), Felice Gimondi (1968), Eddy Merckx (1973) e Bernard Hinault in (1980). Não admira. O homem que venceu um cancro dado como incurável para ganhar 7 (sete) Tours de France, quando abre a boca é para se fazer ouvir. Outros tentaram voltar. Mark Spitz experimentou o regresso aos 41 anos, mas é muito difícil voltar ao lugar onde se foi feliz. Além de que, peço desculpa, mas ganhar sete medalhas olímpicas é histórico. Vencer sete ‘Grand Boucles‘ é do domínio da lenda. Uma lenda viva. A quem bastam duas palavras para parar a realidade.

Duas palavras? "Chove, caraças!"

Duas palavras? "Chove, caraças!"

Novos Poetas (XI) – Rui Pires Cabral

Nesta procura de novas vozes poéticas, já se esbateram os limites etários, geracionais, editoriais (é novo porque não tem livro editado?). Importa mais ir descobrindo ou revelando autores cujo tempo de trabalho poético está ainda a entrar no alvor, ou dele acabou de sair para ganhar esplendor. Na número 10 da revista Telhados de Vidro, de Julho de 2008, editada pela Averno, Rui Pires Cabral (1967) surge, com quatro poemas, sob o título Oráculos de Cabeceira II, cada um deles com número remissivo junto ao título, para uma referência bibliográfica final, titulada ABERTOS AO ACASO. O autor está bem identificado no blogue Volumen, e vale a pena ir lá, perceber melhor. Um poeta só se percebe com o tempo da sua escrita. A sua escrita só se contrói no tempo.

A latere: pedi o número 10 da revista na Fnac do Chiado. Amabilíssima, a funcionária informou-me que estava esgotado, mas possuía 23 exemplares do número 11! Estranhei muitíssimo. Tanta estranheza levou a senhora à investigação in loco (nas prateleiras da ‘Poesia’). Voltou muito animada, de livro na mão, chamou uma colega e informou-nos aos dois: “tem graça, temos imensos números 10, o sistema é que deu entrada do número 11, que não existe”. Entregou-me o exemplar. Paguei e olhei para a incómoda etiqueta que colam na contra-capa dos livros, neste caso ainda mais irritante por estar ‘peganhentamente’ aposta sobre um material translúcido, o papel vegetal, que faz parte integrante do grafismo da revista (na capa, tem a função de deixar entrever e despertar a curiosidade para o desenho de Jorge Feijão, impresso na primeira página de papel opaco). De facto, na referida etiqueta, lá está – Telhados de Vidro N11, com código de barras e tudo. Gostava que as FNAC’s do mundo deixassem de colar vinhetas nas capas dos livros. Gostava, também, que todas fossem tão optimistas que anunciam já, num número acabado de sair, a existência do que há-de vir.

ORÁCULOS DE CABECEIRA II

«Are others happier?»¹

para a Helena Gaspar

Quando se sentam a ler

nos grandes átrios da noite

entre mil luzes, jogos de água,

escadas que rolam ainda

sob cúpulas de betão –

são mais felizes?


Quando saem do trabalho

acossados pelo vento

de meados de Fevereiro

e é sempre segunda-feira

nas paragens do eléctrico –

são mais felizes?


Quando se cruzam connosco

no remanso dos jardins

e encontram outro caminho

de mistério, de desejo

na nossa imaginação –

são mais felizes?


Quando os vemos mais

pequenos, mais ao longe,

nas esplanadas sobre o mar

e por momentos nos lembram

que tudo se há-de perder –

são mais felizes?

ABERTOS AO ACASO:

¹ Derek Jarman, Modern Nature, Vintage, Londres, 1992, p. 138.

Rui Pires Cabral, in revista Telhados de Vidro nº 10, p. 35, Averno, Lisboa, Julho de 2008

ponto cruz © Maria São Miguel, Olhares, fotografia online

ponto cruz © Maria São Miguel, Olhares, fotografia online