As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

The Great American Songbook (XIII) – The Nearness of You

Ninguém pode negar a existência surda de um cenário transformado em private joke (mais correcto, deadly joke), que prevê o assassinato de Barack Obama antes das eleições presidenciais dos E.U.A., ou após as mesmas. O imaginário é poderoso, e Obama congrega, como talvez nenhum outro, os fantasmas de Robert Kennedy e de Martin Luther King Jr. Bem, nisto os americanos não brincam, quando se trata de coisas de estado (não leram os sinais que prenunciavam Columbine e outros acontecimentos deste calibre), mas aí o campeonato da vigilância era outro). Em qualquer dos casos, trata-se do mesmo padrão: adolescentes patologicamente investidos de ódio, organizam planos de mass murdering. Por vezes levam-nos a cabo. No caso concreto, a história reveste-se de contornos de um racismo sinistro, culminando com a morte do candidato democrata. Como sempre, lá estão os códigos dementes, os planos que obedecem a ‘sinais’ e ‘desígnios’ que só têm lugar em cabeças perturbadas. No imaginário colectivo, aposto que se formulam hipóteses de tentativas de assassinato organizadas por grupos ideológicos, poderes obscuros, poderosas forças que se sentiriam ameaçadas pelo ‘preto’. A realidade encarrega-se de desmentir estas ‘teorias da conspiração’. Importa não esquecer que não só os Kennedy e King foram mortos. Antes deles (e só invoco a memória) Lincoln, mas também, Gerald Ford (duas vezes), Ronald Reagan foram alvo de atentados. Em todos os casos estivemos perante actos isolados, perpretados por pessoas mentalmente doentes. Convém manter isto presente. Porque são os cenários mais improváveis, as pessoas mais anónimas, os mais capazes de causar estragos. Barack Obama deve ser mantido afastado das massas. O pior é que ele tem a obrigação – e neste momento da história essa obrigação é incontornável – de se manter próximo delas. Poque o povo, mais que nunca, deseja um Presidente próximo dele.

*

The Nearness of You. Outra canção imortal, da autoria de Hoagy Carmichael e Ned Washington teve um ror de intérpretes a servi-la. Aqui, a grande Sarah Vaughan, numa interpretação contida, mas cheia de sentimento, que escorre pela sua voz, pelas maravilhosas cambiantes da interpretação.

Índice – uma nova revista de livros e cultura

Chegou-me às mãos o número zero da Índice, uma “nova revista dedicada aos livros e à cultura“. Na ficha técnica: “Esta edição foi realizada sob a influência do texto de Maria Gabriela Llansol e a saudade de ler Eduardo Prado Coelho“. O projecto diz, com clareza, ao que vem: “Uma revista dedicada aos livros, aos autores, aos editores, aos livreiros, aos leitores de todas as espécies“. Anuncia uma periodicidade trimestral e 10.000 (!) exemplares a partir do número um.

O que nos traz a Índice? Objectivamente um conceito (palavra que uso com pudor e à falta de melhor, porque me desagrada de todo) transversal nos seus conteúdos, acolhendo novos autores e nomes maiores da literatura portuguesa contemporânea. Nela pode encontrar-se o ensaio, a leitura crítica, breves textos em prosa, poesia, evocações, divulgações, textos sobre música, entrevistas. E uma distribuição de publicidade – uma espécie de caderno no miolo da revista – que tem a vantagem de a isolar do resto dos conteúdos, conseguindo, com isso dar-lhe acrescido destaque. Não será portanto, de admirar a ambição dos editores, que estimam ter um público-alvo de 60.000 leitores. Haja quem ouse, neste ‘portugalinho.’ Sem pretensiosismo, sem pertença a clube, tendência, ‘seita’. A liberdade sente-se à solta na Índice.

Tendo Helena Vieira como ‘dínamo’, a Índice é da responsabilidade da Mariposa Azual (a Casa), editora de que já aqui se falou. (Sai ao mesmo tempo que a ‘Mariposa‘ parte para outra aventura, uma nova colecção, O Rio da Escrita, com três títulos já na forja, de que falarei um destes dias).

O que há a reter neste número zero da Índice? A publicação de três fragmentos (belíssimos) dos “cadernos inéditos de Maria Gabriela Llansol“, em primeiro lugar. Mas também um texto original de José Luís Peixoto escrito especificamente para o lançamento da Índice. Maria Etelvina Santos oferece-nos Maria Gabriela Llansol. A Música da Caixa de Leitura, um texto breve e emotivo sobre o acto de ler enquanto estabelecimento de uma ordem de realidade, na senda do pensamento de Llansol, (texto que prenuncia o ensaio que publicará na referida colecção O Rio da Escrita, sob o título Maria Gabriela Llansol – Como uma pedra-pássaro-que voa; João Barrento retoma excertos de um notável texto de 1984, em Sem mim falta-me qualquer coisa… a propósito de Os Universos da Crítica, obra referencial de Eduardo Prado Coelho. de Gonçalo M. Tavares temos a reprodução da 1ª página de Jerusalém, que, aqui, recontextualizado, ganha novas matizes. E, depois, a poesia de Nuno Moura – devoção acrítica – Tiago Araújo, Hugo Milhanas Machado, Paulo Condessa, Miguel-Manso, João Saboga (neste caso com duas cenas de uma peça ainda não acabada). Todos estes autores merecem atenção, a ver se consigo dar-lha. Sinalizem-se ainda, os textos de Carla Baptista (Paisagem com mulher e mulher ao fundo, ainda com Prado Coelho como tema); de Marta Lança Abandonar os Livros, sobre a leitura enquanto ‘ritual’, de Cláudia Tomaz, Performances híbridas, elaborando sobre as artes performativas. Finalmente, ainda de Marta Lança, um excerto em tradução livre de um lindo poema, Cahier d’un Retour au Pays Natal (1939), de Aimé Césaire; e uma página de um diário de viagem (?) de Pedro Vieira de Moura, Soderno, copita de limón!. Quase saltava por cima do trabalho de Frederico Pereira, recolhendo as palavras de seis editores sobre a leitura e o seu significado numa perspectiva pessoal.

Pois. É bastante. É muito, para um número zero. O grafismo (notável capa) é talvez o plano onde a revista deva investir um pouco mais, mas pode ser apenas uma questão de gosto pessoal.

Como não é todos os dias, que nascem coisas destas, olhem, sejam valentes e descubram coisas mais raras  e valiosas que o último modelo de LCD da Samsung, está bem?

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Sem procuração, autorização, solicitação ou qualquer outro ‘ão’ que não seja comoção, aqui se deixa um dos três fragmentos dos “cadernos inéditos de Maria Gabriela Llansol“. Particularmente feliz nesta revista, onde tudo se congrega para uma ideia central: o transtorno luminoso da leitura.

Ler, ou seja,

vestir o que leio, em

imagem


Não desenho, mas

capto as linhas do

desenho.

Sei qual é a

carne da cor e da

imagem_______

Maria Gabriela Llansol, Caderno nº 51, 20 de Junho de 1998

Revista Índice. Capa do número zero.

Revista Índice. Capa do número zero.