Hu Jia, Prémio Sakharov 2008

by manuel margarido

O Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento 2008 foi atribuído ao activista político chinês Hu Jia, pelo Parlamento Europeu. Infelizmente, para todos os que rejubilam com o gesto ‘desassombrado’ do  Parlamento Europeu, órgão que, na sua própria definição «impõe-se como um co-legislador, dispõe de um poder orçamental e desempenha um papel de controlo democrático sobre todas as instâncias europeias.» (na prática, um ‘albergue espanhol’), o Prémio Sakharov atribuído ao corajoso activista dos Direitos Humanos chinês significa pouco mais que um gesto de retórica diplomática. Na prática, a China já tinha enviado a sua ‘mensagem’ ao condenar Hu Jia a três anos e meio de prisão pelo delito de “incitamento à subversão do poder do Estado”. Uma pena excepcionalmente branda para o país em causa e a natureza do ‘crime’. A mensagem era simples, para quem a quisesse entender: “Não se metam com as nossas questões internas e nós não damos um tiro na nuca ao sr. Jia”. Estávamos na véspera dos Jogos Olímpicos de Pequim e toda a gente que interessava entendeu. O Parlamento Europeu também. Com o Prémio Sakharov, a Europa está a transmitir, de igual forma, à China, o seguinte: “A União Europeia não vai tomar qualquer medida séria que prejudique as relações com a China a propósito dos Direitos Humanos. Atribuimos o Prémio Sakharov, via PE, toda a gente fica de consciência tranquila, podemos mostrar cara lavada para consumo interno – nós, os europeus, paladinos dos Direitos Humanos – e não se fala mais no assunto.” Os Chineses entenderam. Sabem quais são os objectivos em jogo. O comércio, a fluidez do crédito, o investimento externo. Gabam-se os elementos do PE de não ter cedido às pressões chinesas para que o Prémio não fosse atribuído. E a generalidade acredita. Não percebe que as ‘pressões’ fazem parte deste jogo florentino. Sem elas, a entente implícita em todo este jogo ficaria ainda mais exposta.

(P.S.) – A quem louva o Parlamento Europeu por ter tido a coragem que a Academia Nobel não teve, não concedendo o Prémio Nobel da Paz de 2008 a Hu Jia, gostaria de recordar que o corajoso chinês nunca foi responsável por nenhuma guerra nem serviu de bandeira a interesses de ocasião. Era, por isso inelegível).

Hu Jia, Prémio Sakharov 2008

Hu Jia, Prémio Sakharov 2008