Poesia Portuguesa (I) – Vitorino Nemésio

by manuel margarido

O post desta madrugada, sobre a eleição nos Açores, levou-me a falar, de viés, no nome de Vitorino Nemésio (1901 – 1978). Acabei de escrever e fui lê-lo. De novo  o deslumbre. E assim, por portas travessas, se abre aqui uma nova série de posts, onde editarei alguma da poesia que mais aprecio, centrando-me na segunda metade do século que passou. Como de costume, sem grandes balizas, que não as do gosto. Nemésio! Quem lê hoje este mago da língua poética, senhor de uma alegria que se confundiria com leveza, não fora a explosão emocional, reflexiva, linguística, erótica, e mais, e mais… que a sua escrita faz acontecer?

A CAMINHO DO CORVO

À Maria Gabriela e ao Rodrigo,

primos filiais


A minha vida está velha

Mas eu sou novo até aos dentes.

Bendito seja o deus do encontro,

O mar que nos criou

Na sêde da verdade,

A moça que o Canal tocou com seus fantasmas

E se deu de repente a mim como uma mãe,

Pois fica-se sabendo

Que da espuma do mar sai gente e amor também.

Bendita a Milha, o espaço ardente,

E a mão cerrada

Contra a vida esmagada.

Abençoemos o impossível

E que o silêncio bem ouvido

Seja por mim no amor de alguém.

25.7.1969

Vitorino Nemésio, in Sapateia Açoriana, Andamento Holandês e outros poemas, p.13, Arcádia, Lisboa, Julho de 1976

Ponta do Marco, Ilha do Corvo © Gerbrand Michielsen

Ponta do Marco, Ilha do Corvo © Gerbrand Michielsen

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