Eleição nos Açores – Morituri te salutant

by manuel margarido

O PS acaba de vencer a Eleição para a ‘Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores‘ com maioria absoluta (49,98% apurados às 01h33m de hoje – dados fornecidos no Público, edição online). Nada de extraordinário. Dir-se-ia mais: um não acontecimento. As eleições nos Açores são, ao contrário do que pensamos com os olhos de Lisboa, muito diferentes, por exemplo, do que se passa na Madeira, onde se está perto de uma situação de ‘caciquismo’ plebiscitado. Nos Açores há que fazer trabalho político. E, sobretudo, ter prestígio e saber lidar com uma realidade muito mais complexa, com matizes que só quem conhece bem o arquipélago, decifra. Carlos César soube, desde há 12 anos (e muita política de bastidor deve ter feito antes de chegar ao poder), estabelecer pontes com as diversas sensibilidades, os poderes fácticos, as forças locais, com a intelligentsia de cada ilha, com o povo de cada ilha.Como Mota Amaral o houvera feito.

Importa não esquecer dois factos que, nestas ocasiões, nunca vêm à colação: os Açores têm, historicamente, uma elite política, social e cultural com peso. De lá vieram Vitorino Nemésio, Natália Correia, para não falar de Onésimo Teotónio Almeida entre tantos outros. E isto só no século XX. A Câmara Municipal de Lages do Pico, por exemplo, financia uma revista de poesia, a Magma, de notável qualidade e contemporaneidade. Quantas Câmaras Municipais se podem gabar do mesmo no Continente? E na Madeira?

A segunda ‘infusão’ relevante que a história nos permite perceber é que essas mesmas elites têm uma forte tradição liberal e um sentimento de ‘portugalidade’ completamente distinto da Madeira. Não é por acaso que a ‘FLA‘ não passou de um ‘epifenómeno’, enquanto que, nas ‘jardinescas’ ilhas, o fantasma da ‘independência’ ainda paira no discurso político, não como figura de retórica, mas com o peso que tem tudo o que assusta. Não nos esqueçamos que é a partir dos Açores, e com o apoio dos grandes do arquipélago, de ingleses às costas, que D. Pedro parte ao assalto do poder em Lisboa, na Guerra Civil que opôs Miguelistas a Liberais.

Irrelevâncias? Só quem não conhece a realidade açoriana, de fundos contrastes sociais – que Carlos César , honra lhe seja feita, tem, progressivamente, vindo a esbater, ainda que numa escala limitada – de identidades e rivalidades surdas entre diversas ilhas, é que não percebe que, nos Açores, para ganhar, é preciso fazer política. A sério. Capaz de unificar sem mexer nas singularidades e nos poderes de facto. Não é a mesma coisa ser do Faial ou de Santa Maria, de são Miguel ou do Corvo. O PS (e Carlos César) ganharam pela primeira vez nas nove ilhas. Não deixa de ser um feito.

Perante isto, o PSD tinha uma missão impossível. Bem o percebeu Manuela Ferreira Leite, que não pôs os pés nos Açores durante a camapanha. O único líder partidário que não foi lá. Erro? Nem por isso. No arranque de um ano com um ciclo eleitoral pesado e decisivo para ela (e, quem sabe, se para o PSD como o conhecemos), o pior que lhe podia acontecer era começar associada a uma derrota inevitável. Assim, os desgraçados militantes do PSD poderiam dizer, durante a campanha, o que os gladiadores diziam a César antes dos embates. ‘Ave Caesar, morituri te salutant‘ (Avé César, os que vão morrer te saudam!). Costa Neves, líder do PSD Açores, já se demitiu. Foi o primeiro a cair. César nem precisou de baixar o polegar. Basta-lhe gerir mais um mandato. E as verdadeiras ‘ilações’ nacionais desta eleição não são aquelas que, por oportunidade, Ferreira Leite e Sócrates trocaram (tipo galhardetes). Serão as que decorrerem do que César, Carlos, planeia fazer daqui a quatro anos.

A Eleição nos Açores estará amanhã em debate na Rádio Comercial, entre as 23h e as 23h30m, no programa «Ao Fim do Dia», na Rádio Comercial, onde travarei amistoso diálogo com João Villalobos, do Corta-Fitas, que não conheço pessoalmente, mas promete conversa entretida. E estendida um pouco mais para Oeste do Atlântico. Na outra margem do Oceano, outras eleições convocam outras paixões.

Ilhéu de Vila Franca do Campo, São Miguel

Ilhéu de Vila Franca do Campo, São Miguel