Novos Poetas (XIII) – Daniel Jonas

by manuel margarido

Contagioso. Sonótono é contagioso. Depois do primeiro poema do livro, aqui deixo o segundo (ciente de que não os deverei divulgar todos, por muitos serem, e haver direitos de autor, e ser sempre melhor ler o livro, no livro, no papel, com as folhas na polpa dos dedos). De novo os 14 versos do soneto, sendo que, neste belíssimo poema, o título é já verso. E que verso, interpolando, a partir da casualidade fonética, a semântica que decorre dos nomes da Lisnave, de Luís Miguel Nava, explorada com destreza e brilho.

Os dois últimos versos são recolhidos (tal como em todos os poemas do livro, falhou aqui a formatação, no poema anterior).

COMO UM METALÚRGICO DA LUÍSNAVA

Que uma musa metálica redime

E faz dum vulcão cama e os lençóis lava,

Soldo a métrica, malho p’ra que rime.

Toco a afiada lira, tanjo o meu aço,

Na homérica bigorna chispa e liça.

Silvam sereias, chamam-me ao regaço,

Ítaca estanca a dor, Ática atiça-a.

Como operário do verso blindo a nave

Que ao leme outro almirante levará;

Levo-me a mim à vela, o argueiro é trave:

Neste solo outro mastro cantará.

E se o cálamo às vezes carpe as bulhas

Das carúnculas saem-me faúlhas.

Daniel Jonas, in Sonótono, p. 12, Cotovia, 2007

'Não sei do que é que estou à espera' © Mariah, Olhares, fotografia online

'Não sei do que é que estou à espera' © Mariah, Olhares, fotografia online

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