Novos poetas (XII) – Daniel Jonas

by manuel margarido

Prémio Pen Clube de Poesia ex-aequo para Sonótono, de Daniel Jonas (Cotovia) e Segredos do Reino Animal, de Hélder Moura Pereira (Assírio). Já havia encontrado Daniel Jonas (1973) em Os Fantasmas Inquilinos (Cotovia, 2005). A impressão que me causou foi maior. Agora, com Sonótono, este cuspidor do fogo das palavras, que sopra a Língua como quem desfaz dentes-de-leão, espalhando as suas sementes pelos ares, vê o seu trabalho justamente premiado, em conjunto com um poeta já consagrado. Não tenho mérito para tecer juízo crítico. Gosto muito. Outros o fazem, com maior competência, em lugares afectivos e noutros mais críticos (no sentido de crítica literária, entenda-se). O melhor é ler. De preferência acompanhar a obra. Aqui fica um poema de Sonótono, que tem 14 versos. Como um soneto. Mas é um soneto que habita nele, ou é ele que invade o soneto e o desmantela?

BENGALEIRO OU HORACIANAS

Físico o tractor quente arremessou
Contra as colheitas de ouro o breu de corvos
Trazendo a noite em ondas de onde andou
De foice afoita, a luz sugando a sorvos.
Modorrento, o vapor da chaminé,
Máquina de fazer nuvens, levando
Ondinas ao empíreo mar, rapé
Da paz entre titãs que ordenhando
Alheias colinas se houvessem mais
Desavindo. Van Gogh ou Fabergé:
Ovos de palha, gemas siderais
Chocados em estrelado canapé.
Entrar nesta pintura eu queria
Se à entrada não pedissem a poesia.

(Daniel Jonas, in Sonótono, Cotovia, 2007)

campo © Pedro Ferreira, Olhares, fotografia online

campo © Pedro Ferreira, Olhares, fotografia online