As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Novos Poetas (X) – Pedro Afonso

Na esteira de Miguel Godinho, acabo por ‘tropeçar’ em Pedro Afonso (1979), um dos fundadores da revista Sulscrito, ontem referida, traçando uma linha de escrita poética que percorre caminhos próximos dos de Godinho. O seu trabalho, identificado no blogue Volumen, que lhe dedica atenção crítica, é ainda, notoriamente, o labor de uma voz poética em definição. O primeiro livro de Pedro Afonso, ainda aqui este lugar, marca o início da actividade da Editora 4Águas (Tavira). Pode, igualmente, ser melhor conhecido (refiro-me ao trabalho poético) no seu blogue pessoal, A Pedra, onde se foi encontrar este poema.

por causa do fumo

a metade acesa da lua
derrama-se pelo mar
até à ria

ambos assim
a esta distância
parecem quietos

isto de ter que vir fumar
à janela
é um bocado chato
mas às vezes traz poesia

Pedro Afonso, 6 de Outubro, em http://apedra.blogsome.com/.

untitled © gonzales, Olhares, fotografia online

untitled © gonzales, Olhares, fotografia online

The Great American Songbook (V) – My Funny Valentine

A 26 dias do acto eleitoral, depois do debate que melhor clarificou posições, as coisas crispam-se e entram no terreno do ataque pessoal. Agora vale tudo e surgem abertamente na ofensiva as mulheres desta campanha – Michelle Obama, Sarah Palin & Cindy McCain (apontamento claramente sexista e politicamente incorrecto, que faço questão de sublinhar ser voluntário, e suspeito que de concordância íntima de muito boa gente). Em entrevista a Larry King, Michelle Obama pauta-se pela polidez estratégica que norteia a campanha do marido. Mas não evita algumas farpas, sendo a maior de todas a jogada da superioridade moral face à consorte de McCain: «sabe, aperto-lhe a mão», ou seja, ‘olhe, a Cindy é uma cabra rica e malcriada, mas está em campanha e eu faço o favor de ser melhor que ela’. Michelle falava na sequência das declarações de Cindy McCain ao Tennessean, imediatamente a seguir ao debate, afirmando que Obama «is running the dirtiest campaign in American history». Bem… a senhora tem idade para se lembrar do Richard Milhous. Por seu lado, Sarah Palin, aquela que, do Alasca vê a Rússia e, portanto, o mundo, partiu para o ataque em forma, acusando Obama de «palling around with terrorists who would target their own country.». Referia-se à ‘pista’ William Ayers, que não leva a lado nenhum, mas que já hoje foi de novo utilizada pela campanha republicana. Amores e ódios andam à solta, neste ticket eleitoral, que é também conjugal.

*

My Funny Valentine. Em 1937 a dupla Rodgers & Hart escrevia o musical Babes in Arms. Outros tempos, outras guerras. Dele surgiu este standard, um clássico que mais de 600 artistas se atreveram a enfrentar, com resultados variáveis. A escolha de hoje recai num monstro do jazz, gigantesco no improviso, exemplar no respeito e na admiração pelo melhor do Great American Songbook. Keith Jarrett. Uma interpretação memorável.

Le Clézio ganha o Nobel da Literatura

Jean-Marie Gustave Le Clézio (1940-) ganhou hoje o Prémio Nobel da Literatura (à hora que escrevo, o site da Fundação Nobel ostenta ainda, gloriosamente, Doris Lessing, 2007), satisfazendo deste modo o ego francês, que tem uma bela ideia da sua língua, ‘la plus belle des langues’, e da sua literatura, ego que não era massajado desde Claude Simon (1985). Confesso que li muito pouco o autor, até pelo fastio crescente que os romancistas franceses me vêm provocando (culpa minha, certamente). Le Chercheur d’Or, e o mais recente Coeur brûlé et autres romances (2000), não dão para formar uma ideia sólida do conjunto da obra. Destreza e muita mão, mas algo errático (digo eu, que gosto de dizer coisas). Desconfio que (Roth, perdão, escapou-se) havia escolhas melhores. Há sempre escolhas melhores, não é? Como diz um post (comentário) colocado esta tarde no blogue da LER, “This is sadder than funny, and funnier than sad.” – Anónimo.

Sou Nobel, vou ganhar muito papel.

Sou Nobel, vou ganhar muito papel.

Fotografia do Dia

No The First Post, edição de dia 8.

"Know thyself? If I knew myself I would run away" - Goethe

«John McCain waits backstage before the presidential debate with Democratic presidential candidate Senator Barack Obama»

Trapalhadas…

José Manuel Fernandes ‘declarou’ à ERC – Entidade Reguladora da Comunicação Social –  que o primeiro-ministro o pressionou, telefonicamente, para não divulgar notícias relativas à polémica em torno da sua (do PM) Licenciatura. ‘Declarou’, mas não ‘gravou’. Ou porque “não nos lembrámos de gravar” ou porque o “gravador ou o sistema avariou” (duas possibilidades que se podem facilmente confundir na memória de qualquer director de jornal de referência, especialmente quando um primeiro-ministro nos  está a ‘pressionar’). Pressurosa, a ERC tratou logo de difundir no seu site o que disse J. M. Fernandes, a partir de apontamentos de membros da Entidade. Esclarecidos? Não, porque, afinal, os apontamentos  dos ‘membros’ eram imprecisos e não foi bem aquilo que o director do Público disse. Confusos? Não, porque a ERC encarregou-se imediatamente de assumir o ‘erro’. E de pedir, por escrito, novo depoimento, uma ‘reconstituição provisória’ (o que seria uma ‘reconstituição definitiva’?) a Fernandes, que assim fez. Ah, finalmente vamos ver luz! Não. Acontece que o teor da dita ‘reconstituição’ tem matizes mais difusas, nuances que relativizam o teor da famosa primeira conversa ‘esquecida de gravar ou não gravada por avaria do gravador ou do sistema’ – seja lá o que isso for. Sócrates esperou sentado. Depois enviou uma carta à ERC onde chamou “covarde” a José Manuel Fernandes.

A história pode ser toda lida, online, e com links para os ‘documentos’, no site do Portugal Diário.

Na rua dos meus Pais, nas Avenidas Novas, aconteceu há dias uma cena igualzinha. Envolvia o homem do talho, a vogal da Junta de Freguesia e um armazém frigorífico. Quem se ficou a rir foi o armazém frigorífico.

Foste tu, seu covarde!

Foste's tu, seu covarde! © Norman Rockwell