Novos Poetas (VIII) Maria Sousa

by manuel margarido

De novo se recolhem e divulgam alguns dos trabalhos da revista criatura (número 1, o segundo “já anda por aí”), desta vez numa ‘variação sobre um tema’, da autoria de Maria Sousa. (/foram várias as vezes que escolhi a tua presença/para que o que escrevo tivesse corpo) – excerto destacado porque dá gosto.


nunca percebi muito de vozes

mas se te ouço


mesmo quando é difícil entender

cada palavra


faço do corpo um espaço de silêncio

escrevo o que ainda conheço

nomes de ruas, pássaros, árvores

monólogos de quem ainda fala alto

é a minha voz ou a tua?

como se tudo fosse uma metáfora sem fim


lá fora a chuva confunde-se com gestos

falamos do tempo, ponte entre o silêncio e o nada


ouve, quando não fores capaz de falar, toca-me

há várias maneiras de começar o dia

quando acordo fumo um cigarro


coso silêncios à pele

num quarto inteiro de palavras vazias

que se repetem como rituais


durante semanas ensaiei regressos

apesar das paredes vazias

não deixo de fingir que não estou só

depois de te dizer que a melancolia já não se usa

fumo um cigarro e invento um abandono


foram várias as vezes que escolhi a tua presença

para que o que escrevo tivesse corpo

(escrevo) gestos num livro de quedas

por entre a paisagem doméstica


cheia de vazios regresso ao sono

onde deixei os pássaros

st © Vanessa designer, Olhares, Fotografia online

st © VanessaDesigner, Olhares, Fotografia online

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