O Romance sem Mestre

by manuel margarido


Ó país de cristal, que longe eu estou,

dava um ano de ordenado por um momento

da minha inocência perdida.

(Molero, a páginas zero)

O Que Diz Molero

O Que Diz Molero

Tenho agora, aqui na minha mão, O Que Diz Molero, de Dinis Machado. A terceira edição de 1978 (com a bela capa  de Saldanha Coutinho, nunca depois igualada em edições mais recentes),  surgira o livro em Agosto do ano anterior. Dado o seu enorme sucesso, uns meses chegaram para reedições sucessivas. Vulgar, hoje, no tempo dos best-sellers formatados pelo marketing, quando a segunda edição já está na gráfica e ainda a primeira não chegou às bancas. Mas não em 1978. Em 1978 eu tinha 16 anos, levava a literatura muito a sério (aos 16 anos levamos tudo muito a sério) e fiquei adolescentemente cilindrado pelo livro. Não se encaixava em nenhuma das ‘gavetas’ que  de modo incipiente, começava a organizar, guiado, no Padre António Vieira, por notáveis professores de Português, Luís de Lima Barreto, Ivone Niza, a leccionarem no ensino público secundário!

Definitivamente não sabia como arrumar a coisa. Não cabia num género. Texto arrogantemente livre das peanhas ideológicas do tempo, pairava alegremente acima de ‘escolas’, de tendências, de referências. Era o romance sem Mestre. Uma escrita densa e em simultâneo feérica, uma narrativa que não se perdia, mas que se perdia em mil histórias, um locus (o Bairro Alto) absolutamente incomum para os tempos, uma linguagem riquíssima, quase enigmática no estonteante cruzamento de referências a uma memória mais que ‘incorrecta’ para a época – o cinema americano, a cultura popular, a banda desenhada, o caldo quente do ‘Bairro’. Um carrossel entre o erudito e o popular que me aturdiu. Quem é que apanha aquele livro aos 16 anos? Não eu. Não senão depois de muitos anos, quando reli o livro “pela primeira vez”.

O Que Diz Molero é grande literatura? Não me atrevo a ‘classificar’. É. Suscita uma enorme alegria, uma festa verbal, um gozo sem medo. E a ternura exala dele por todos os poros, uma ternura portuguesa, com uma pitada de nostalgia surda. Diz-se que é a obra da vida de Dinis Machado (e eu também acho), e por isso o seu drama. O drama do escritor de um só livro. Em 1983, Machado afirmou: “Gostava que o meu livro ficasse como um grito de amor e que não se deixasse ficar pelo caminho, de forma a poder-se olhar para ele mais tarde com o mesmo amor“. Não ficará pelo caminho. Se não teve Mestre, não deixou discípulos. Está ancorado como objecto singular no quadro do romance português da segunda metade do Século XX. Vai olhar-se para ele com amor. Dinis Machado morreu hoje. Que habite o seu país de cristal.

Dinis Machado (1930-2008)

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