Novos poetas (IV)

by manuel margarido

Manuel de Freitas


NADA DE NADA

para o José Carlos Soares

Um dia, logo de manhã, entraremos

num cemitério e perguntarás a Antonia

Pozzi se estar morto é mais ou menos

triste do que estes dias arduamente sepultados.

Receando que saibas a resposta, beberei

com Lowry a primeira ou a última tequila,

na certeza de que ambos os adjectivos estarão

certos (um pouco, talvez, demasiado certos).


Assim possa a chuva apagar todos

os versos que escrevemos

para nada, sobre nada, contra nada,

à sombra imensa dos jacarandás

que floriam – distraídos, quase por engano –

no Rossio. E inundavam de luz (nunca

vi uma luz tão escura) as portas

e os umbrais deste cemitério assim.

Manuel de Freitas, in revista Telhados de Vidro nº 7, p. 47, Averno, Lisboa, 2006

a slaughter of roses © rattus, Olhares, fotografia online

a slaughter of roses © rattus, Olhares, fotografia online

Advertisements