Novos poetas (III) – criatura

by manuel margarido

Já referi que a razão desencadeadora da divulgação, aqui, da poesia ‘nova’ que se vai produzindo, teve como ponto de partida o pertinente artigo de capa da Ípsilon de 12 de Setembro (“Há uma geração de poetas portugueses do século XXI?“), que credito agora, agradecido, a Luís Miguel Queirós, autor do(s) textos(s), acompanhados por ilustrações de João Fazenda. Em caixa, assinala-se o nascimento de uma nova revista de poesia: criatura, lançada pelo Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Parece que algum entusiasmo se gerou em torno da mesma, até por publicar trabalho de criadores que ainda não têm edição da sua obra em livro. Quer a matéria sobre a revista, quer o próprio artigo de fundo levantam múltiplas questões. Uma delas é a possibilidade de se ir validando a existência de uma ‘diferença’, uma ‘corrente’ emergente de poetas que, no seu conjunto, permitiriam que se falasse de uma ‘nova geração’. Lendo o primeiro número de criatura (mas também a Telhados de Vidro, a Magma), não creio que se possa ser categórico. Nem vejo, de resto, grande problema no facto. Se, numa década, aparecer um par de bons poetas, óptimo. Se aparecer apenas um que se vá afirmando pela excepcionalidade, fantástico. Pressentem-se, porém, traços identitários que são comuns à escrita de muitos dos autores publicados na revista. Uma focalização no ‘Eu’ enquanto matéria poética, a partir de uma perspectiva niilista; um regresso ao lirismo e à temática amorosa numa abordagem onde o corpo se instaura como lugar central e de angústia, de incomunicabilidade; a percepção do sem sentido do espaço social como território de redenção (é flagrante a ‘despolitização’ da generalidade do trabalho poético que vai surgindo). Talvez tudo isto se perceba melhor num belíssimo texto Beatriz Hierro Lopes (“Geração do Silêncio“) que encontramos neste primeiro número e que pode ser lido no blogue da autora (At the Still Point). Concluindo: não encontrei nenhuma pepita de ouro. Mas materiais de nobreza vária, inevitavelmente irregular. Aqui destaco um poema de David Teles Pereira.

A TUA CASA

A tua casa solta um suspiro de ouro.
Eu espero, num lugar entre a porta e o meu medo,
Que à janela venhas sacudir o teu amor.

Aqui na rua as vizinhas olham-me das suas varandas,
Recolhem os filhos para dentro das saias,
Escondem-se a sussurrar a minha desgraça.

À minha janela espreita melancólica uma casa.
Eu sempre esperei, sem ver outro dia,
Que espreitasses enquanto me crescem as asas.

David Teles Pereira, in revista criatura nº 1, p. 46, Núcleo Autónomo Calíope da F.D.L, Lisboa, 2008

criatura - anúncio do lançamento.

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