Do online ao papel

by manuel margarido

Há quase dez anos, em plena época da chamada “bolha tecnológica”, no início do vertiginoso processo de criação/transposição de conteúdos para o meio online, numa conversa acesa com um colaborador de grande inteligência, juventude e ego, dizia-me este, conhecedor do meu gosto pelos livros: «Esquece, daqui a vinte anos não se fazem livros. Está tudo na web!». Recordo, com o rigor que o tempo permite, ter-lhe respondido: «Pois. Mas os melhores conteúdos que forem produzidos na web hão-de passar a livro». Não sou propriamente áugure. O tempo encarregou-se de produzir um trânsito que processa agora, em grande crescimento, nos dois sentidos. Dei hoje conta, em artigo da Folha Online (São Paulo, Brasil) que o poderoso grupo Bertelsmann vai publicar uma versão impressa (alemã) da Wikipedia, símbolo maior da produção de conteúdos online e referência incontornável na discussão das vantagens e desvantagens dos dois meios (o materializado e o desmaterializado) na produção e fixação do conhecimento. Um calhamaço com 1.000 páginas e 50.000 verbetes. E lembrei-me do que disse Eduardo Lourenço, na belíssima entrevista que concedeu a Carlos Vaz Marques no nº. 72 da LER, de Setembro de 2008*: «(…) o relacionamento com os livros  – que vem de todos os livros que a gente lê quando é jovem – torna-os bocados de nós próprios. São as tábuas privadas das nossas leis. As escritas e as não escritas. Faltará qualquer coisa quando a nossa relação com eles for puramente electrónica.» A intimidade da relação que Eduardo Lourenço estabelece entre a pessoa e o livro é mais do que uma questão filosófica ou estética. Conduz inexoravelmente a interrogações que parecem centrais e ocupam um espaço de discussão imenso: como se lê digitalmente? Como se se apropria o leitor de um texto no ecrã de um computador (ou de um i-pod)? Mais: como se escreve digitalmente? Quais as variáveis implícitas à produção escrita que se deslocam, quando se desloca o meio em que se escreve?

*A revista LER tem um blogue, excelente, por sinal, rico em conteúdos, informação, com uma capacidade manifesta em convidar quem o visita para a vertigem nos livros. Admirável jogo de espelhos…

A fragilidade pode "desfolhar-se"?

A fragilidade pode "desfolhar-se"?

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