As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Subconsciente monárquico

A situação não podia ser mais prosaica: sentado no sofá, lia o jornal enquanto ouvia as notícias, após o almoço. Ouvia, não via. E quem eu ouvia era, garanto, a voz de D. Duarte de Bragança, putativo herdeiro da coroa portuguesa (descontinuada). Contudo, atraído pelas palavras proferidas «Sabe, não me parece a ocasião oportuna para me pronunciar…» (citado de memória) levantei os olhos do jornal. Palavra de honra que era o Sr. Presidente da República que estava no ecrã. A voz, a voz de Cavaco Silva era, asseguro, de uma semelhança inquietante com a de Duarte Pio. No tom. No timbre. Na pausa. Na guturalidade. Devaneio imediato: terá a primeira figura da República um subconsciente monárquico?

onde estão os meus óculos?

onde estão os meus óculos?

Do online ao papel

Há quase dez anos, em plena época da chamada “bolha tecnológica”, no início do vertiginoso processo de criação/transposição de conteúdos para o meio online, numa conversa acesa com um colaborador de grande inteligência, juventude e ego, dizia-me este, conhecedor do meu gosto pelos livros: «Esquece, daqui a vinte anos não se fazem livros. Está tudo na web!». Recordo, com o rigor que o tempo permite, ter-lhe respondido: «Pois. Mas os melhores conteúdos que forem produzidos na web hão-de passar a livro». Não sou propriamente áugure. O tempo encarregou-se de produzir um trânsito que processa agora, em grande crescimento, nos dois sentidos. Dei hoje conta, em artigo da Folha Online (São Paulo, Brasil) que o poderoso grupo Bertelsmann vai publicar uma versão impressa (alemã) da Wikipedia, símbolo maior da produção de conteúdos online e referência incontornável na discussão das vantagens e desvantagens dos dois meios (o materializado e o desmaterializado) na produção e fixação do conhecimento. Um calhamaço com 1.000 páginas e 50.000 verbetes. E lembrei-me do que disse Eduardo Lourenço, na belíssima entrevista que concedeu a Carlos Vaz Marques no nº. 72 da LER, de Setembro de 2008*: «(…) o relacionamento com os livros  – que vem de todos os livros que a gente lê quando é jovem – torna-os bocados de nós próprios. São as tábuas privadas das nossas leis. As escritas e as não escritas. Faltará qualquer coisa quando a nossa relação com eles for puramente electrónica.» A intimidade da relação que Eduardo Lourenço estabelece entre a pessoa e o livro é mais do que uma questão filosófica ou estética. Conduz inexoravelmente a interrogações que parecem centrais e ocupam um espaço de discussão imenso: como se lê digitalmente? Como se se apropria o leitor de um texto no ecrã de um computador (ou de um i-pod)? Mais: como se escreve digitalmente? Quais as variáveis implícitas à produção escrita que se deslocam, quando se desloca o meio em que se escreve?

*A revista LER tem um blogue, excelente, por sinal, rico em conteúdos, informação, com uma capacidade manifesta em convidar quem o visita para a vertigem nos livros. Admirável jogo de espelhos…

A fragilidade pode "desfolhar-se"?

A fragilidade pode "desfolhar-se"?