Novos poetas (II)

by manuel margarido

Outra voz. Manuel de Freitas. Poema publicado sob o ante-título BOA MORTE.

PONTA DO SOL

para a Inês

Havia um arco sobre o mar
e falésias onde o vento
doía muito. Tive medo
de encenar tão concretamente
a minha morte. O próprio restaurante
(lágrimas com bife do lombo)
avançava pela rocha dentro
numa espécie de resignação feliz
a um tempo menos capaz de ser tempo.

Mas chega a parecer ridícula
esta obstinação
de quem no mundo procura apenas
o inexistente fim do mundo.
Choravas, doutra maneira,
a juventude derrotada,
desatenta ao alarme das gaivotas
e que já nem o garrote da memória salva.

Manuel de Freitas, in revista Telhados de Vidro nº 1, p. 47, Averno, Lisboa, 2003

marcas-dagua-xxxvii © Carlos Azevedo Matos, Olhares fotografia online
marcas-d’água-xxxvii © Carlos Azevedo Matos, Olhares, fotografia online
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