Novos poetas (I)

by manuel margarido

Na Ípsilon de Sexta-Feira, 12 (que emprestei, não podendo creditar agora a autoria), um artigo de fundo (e de capa) sobre os “poetas novíssimos”, numa inevitavelmente difícil definição temporal ou geracional, manejada com critérios francamente aceitáveis. O tema é abordado de forma ampla, não se limitando a um name dropping subjectivo, mas levantando igualmente questões como a existência (ou não) de novas linguagens e estilísticas que configurem tendências, os novos modos de produção e publicação – a Internet tem aqui um lugar de deslocamento da escrita e da leitura/apropriação do poema que faz sentido ser pensado – e os cada vez mais finos e dispersos canais de comunicação entre quem escreve e quem lê (resta a questão, pertinente, de saber se ainda há quem leia poesia.) Entre os nomes que se referenciam consta Renata Correia Botelho, a quem se destaca a capacidade para uma escrita formalmente apurada, sonora. Eu tinha-a lido há muito, quando saiu o número zero da Revista Magma, numa separata que a acompanhava, com o título Avulsos, por causa. Nessa altura deixara-me a impressão de uma certa incipiência – e nada mais dela li depois – mas  também uma capacidade notável para o poema breve, solar, dominado por um erotismo amarrado à trama dos sentimentos. Nada de novo como temática poética, mas, ainda assim, além do que vulgarmente se lê, quase em tonalidade diarística adolescente, nos dias que correm. Está decidido. Sempre que puder vou deixar aqui poemas com pressa de serem conhecidos, escritos por poetas a urgir. A seguir.

12


Salmo

cobriu-lhe os seios de

trevos, para dar sorte, e

pintou-lhe as

unhas de escarlate


na cama de deus

dormirá, hoje, uma mulher bonita.

Renata Correia Botelho, “Avulsos , por causa“, in Separata da revista Magma número zero, Junho de 2005.

A realidade não precisa de mim © Mariah, Olhares, fotografia online

A realidade não precisa de mim © Mariah, Olhares, fotografia online

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