Mamma Mia

by manuel margarido

Fui ver por insistência de amigos. Mamma Mia. Os ABBA!? Desde miúdo que gosto de musicais e da sua época de ouro. Mas, nas últimas décadas, após o período clássico, salvaram-se talvez West Side Story, One From the Heart, The Cotton Club, sem esquecer o grande The Lion King. Esse mesmo. Os tempos, portanto, não são favoráveis ao género. Muito menos os autores da música. Prolíferos compositores e intérpretes de inúmeros sucessos nos nada recomendáveis anos 70, sintomaticamente falecendo no início da década seguinte, tinham na minha memória um acentuado travo xaroposo. E contudo…

E contudo dei comigo a ver um filme despretensioso e… delicioso. Não foge muito dos cânones do género, no seu período clássico. Com a devida licença, fez-me até lembrar (apenas lembrar) um monumento: On the Town. O plot vagamente semelhante, em que três tipos chegam ao engano, não ao encontro da grande cidade e de uma idealizada Miss de província, mas do lugar onde – e da mulher com quem – já foram felizes, a partir de um equívoco (um cartaz num, uma carta noutro). Gene Kelly e Frank Sinatra, claro, encarregam-se de marcar as distâncias. Stanley Donen também. E a cenografia, que nunca tira partido do locus que a Grécia oferece, como o outro Nova Iorque nos oferecia. Os diálogos, as famosas lines, que são arrebatadores no filme de Donen, aqui ficam-se quase sempre pela ligeireza. Para não falar da ausência de momentos dramáticos verdadeiramente credíveis. Brosnan está ali por engano… Para contrapor, apenas uma Meryl Streep fabulosa. É um lugar comum, mas a mulher não falha. Sai-se sempre melhor do que esperamos. E esperamos muito. E, ainda, uma brilhante ideia, com a utilização dos figurantes, coristas e bailarinos como Coro da Comédia Grega. Aí, por vezes, o filme chega a ter espessura.

Mas, se a excepcionalidade da música de Leonard Bernstein se cola imaculadamente a On the Town (e é a música a essência da progressão narrativa do género), Mamma Mia é o momento certo para tentar perceber uma perplexidade pessoal: como é que nunca me dei conta que o imenso trabalho dos ABBA era tão bom? Como é que deixei escapar, na gaveta mental dos meus favoritos, temas como The Winner Takes It All, Slipping Through My Fingers, The Dancing Queen (da qual apenas apreciei – e muito – um divertimento a que Bono e os U2 se dedicam num bootleg live)? Porque os ABBA eram pirosos? Sim, por preconceito. Mas também porque só o tempo ajuda a distinguir aquilo que fica daquilo que desaparece. Com Mamma Mia a música dos ABBA é definitivamente resgatada para a posteridade dos grandes núcleos criativos da música pop. É pouco? Paul McCartney é um ícone. Fez melhor?

Os Actores do filme e os ABBA. O que é consensual é bom?

Os Actores do filme e os ABBA. O que é consensual é bom? © Daniel Karlsson.

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