Mudar custa

by manuel margarido

Tinha eu treze anos, foi a seguir ao 25 de Abril. Em visita ‘à terra’, cheio de certezas adolescentes e igualitárias, bebidas no espírito do tempo, vejo-me em acalorada discussão com um tio, homem lá ‘da terra’, sobre a injustiça de ganharem as mulheres metade do salário dos homens. Ouviu-me. Depois, apontando para uma pilha de sacas de batatas, resmungou: «No dia em que as mulheres acartarem o mesmo que os homens, tu tens razão». Calou-me. Aos treze anos pode-se pouco contra a geométrica lógica da mentalidade rural.

No espaço de uma geração o país urbanizou-se. Modernizou-se. Ganhou uma pátine de mundo. Tem um jornal como o Público, por exemplo, onde surge hoje, na capa, em título, «Homens continuam a ter salários muito mais elevados que as mulheres». E, em sub-título, «Portugal e Eslováquia são os países com a maior discriminação salarial da UE». Passaram trinta anos sobre a discussão com o tio da ‘terra’.

Três décadas não libertaram o lastro fundo daquilo que continuamos a ser: uma sociedade conservadora, avessa à mudança e agarrada a ideias ‘seguras’ (isto é uma generalização, evidentemente). Se já não podemos controlar as mulheres no matrimónio, ainda as temos na mão nos salários. Se já não lhes podemos dominar o corpo, os comportamentos, as palavras, ainda lhes apertamos o freio na carteira. Não vão elas gastar tudo nas Zaras, nos Shoppings, nos jantares de amigas. Em discos do Tony Carreira. Em férias para lugares quentes.

O pior é que já gastam.

Na Ásia. Mas lembra-me tanto a minha "terra"...

Na Ásia. (Lembra-me a minha "terra").

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