As banalidades extraordinárias

by manuel margarido

É evidente (no sentido de comum, inevitável, óbvio) que um Estado da União Europeia, vivendo em regime democrático, com fronteiras generosamente (entre)abertas, tenha de possuir pelo menos um corpo policial de intervenção especializado em situações de crise (sequestros, incidentes de carácter terrorista, ocorrências de risco para a segurança das pessoas? É.

A cobertura mediática que a actuação dos GOE (criados no governo de Maria de Lourdes Pintasilgo, convém lembrar) mereceu, no assalto com sequestro a um balcão do BES, em Lisboa, apenas cumpre o papel inevitável da comunicação social: amplificar até ao ponto da emotividade a notícia do acontecimento. Até aqui suporta-se. Há que manter o fluxo das conversas matinais, no pequeno-almoço das famílias, no cofee-break das empresas. O que já não é evidente, e muito menos normal, é que surja – e inevitavelmente surgiu – um “não dito”, mas implícito tom de censura à actuação daquele corpo policial. Que ganhou contornos de opinião crítica nos lugares onde se forma opinião. Na blogosfera, houve quem se perguntasse se, para as 17 mulheres que já morreram este ano às mãos dos companheiros/maridos/namorados, haveria um sniper pronto a actuar. Subentendido: brasileiros assaltantes matam-se “por dá cá aquela palha”. Agora as ‘vítimas mudas’ da normalidade quotidiana não têm defesa. Admito a bondade da comparação. Mas só por bondade aceito a sua honestidade. No caso do assalto ao BES, imaginemos que, por azar, os GOE tinham falhado a sua missão. O que não se diria sobre a fraqueza do estado de direito, sobre a precariedade das polícias, sobre a insegurança a que isto chegou. Seriam outras vozes a clamar? Provavelmente não. Provavelmente seriam as mesmas. Aquelas que gostam de tornar extraordinário o que é banal. E assim banalizam o extraordinário.

Nota: este não é um elemento do G.O.E.

Nota. não sei se brutos, se limpos, cada elemento dos G.O.E. leva para casa 1.300€ por mês, excepto se estão em missão no estrangeiro. Quanto ganha – honesta e merecidamente – um cidadão brasileiro, português, moldavo, etc… que trabalha na construção civil?

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