Miguel Esteves Cardoso no Público – a primeira crónica

Seria quase uma trivialidade, seria um acontecimento quase normal, nascido da vontade de um diário, o Público, enriquecer o seu quadro de cronistas com um nome de vulto, gerador de opinião, bruá,  mais pontos de audiência. Mas este é um acontecimento no verdadeiro sentido da palavra, não é um quase. Miguel Esteves Cardoso começou ontem, dia 5 de Janeiro, a publicar uma série de crónicas. Uma série de crónicas diárias, consecutivas, com a duração de, pelo menos um ano, 365 serão. Uma façanha (lembro-me de Eduardo Prado Coelho, também no Público) a que poucos se atrevem, pelo menos de plena consciência. Escrever por escrever há muito quem escreva: a metro. Ora Miguel Esteves Cardoso nunca escreveu a metro. Ou melhor, mesmo quando escrevia a ‘aviar’, como recentemente afirmou em entrevista à LER, toda a gente achava que era genial (fenómeno que seria assustador para o próprio). E era mesmo genial, ou andava lá perto, no seu menos melhor, ou nas redondezas, no seu mais assim-assim. Porque este homem marcou as muitas gerações que há dentro de uma geração. Algures entre as décadas de oitenta e noventa ele ajudou-nos a sermos um bocadinho menos parvónia. Merece respeito por isso. Merece respeito pela coragem com que se entrega a este trabalho diário, que ontem começou.

E começou tão leve, o MEC. Num texto de uma suavidade elegante, quase intangível, traça um grácil arco de humor, humanidade e sentido a partir de uma trivialidade. Longe da truculência de outrora, é uma voz muito mais serena que vamos começar a ler, pressinto. Um outro completamente o mesmo. Reproduzo aqui, integralmente, esta e apenas esta primeira crónica, ainda que não tenha pedido licença ao Público, nem ao próprio autor, que não conheço. Se não sentir vestígios do meu agradecimento neste post, que pelo menos o Público o tome à conta de promoção. Tu não nos morras, intitula-se a crónica. Obrigado por não nos ter morrido, Sr. Miguel Esteves Cardoso.


Tu não nos morras

«Quando eu era ainda mais novo do que sou hoje, julgava que os velhos de Beckett eram personagens abstractos. Se tinham cabelo branco até à cintura, cabeças caídas e passos vagarosos era porque Beckett imaginara-os assim.

Agora vejo que não era por isso que são universais. Era por serem mesmo velhos: os velhos que, se tivermos sorte, muitos de nós ainda haveremos de ser.

A morte da senhora de 115 anos, Maria de Jesus, não deve ter sido boa notícia para Augusto Moreira. Este era uns bons três anos mais novo. Mas agora,  com os mesmo 112 que tinha, passou a ser o mais velho de Portugal.

Em contrapartida, nós os mais novitos – toda a população – adoramos estas histórias.

Fazem-nos sentir jovens. Dão-nos esperanças de chegar, vá lá, aos 90. Então se o “segredo” é um vício, deliramos. O do Sr. Moreira é um cálice de Porto por dia. Que nós logo convertemos, em termos etários, para nosso próprio consumo, para uma garrafa de tinto.

O Sr. Moreira não é perfeito: não fuma. Mas come “sopas fortes”. De resto, como contou Ana Cristina Pereira no PÚBLICO de ontem, “quase não anda, quase não ouve, quase não vê, quase não fala”. No entanto, na noite de sexta para sábado, chamou muitas vezes pela filha. Que queria ele? “Quero uma saia”, respondeu ele uma vez. E doutra: “Quero debulhar milho.”

Tenho de reler Beckett. Se calhar não era tão bom como eu pensava.»

Miguel Esteves Cardoso [Ainda ontem, série de crónicas diárias], Público, 5 de Janeiro de 2009.

Augusto Moreira de Oliveira, português com 112 anos (Foto Lusa/Pedro Ferrari)

Augusto Moreira de Oliveira, português com 112 anos (Foto Lusa/Pedro Ferrari)