Alexandre O’Neill — epitáfios
por manuel margarido
No dia 21 passaram 25 anos sobre a morte de Alexandre O’Neill. Passar é, no caso vertente, a palavra-chave, já que o escritor a ela se refere, em ligeira e divertida crónica a propósito de epitáfios. Uma vez que os textos elegíacos já estão todos (não) escritos, transcreve-se aqui o texto de O’Neill sobre epitáfios, assunto que, como se sabe, se presta a préstitos tanto quanto a humor.
Coleccionar epitáfios pode muito bem ser uma suave tarefa estival. Além disso, avizinhando-se o Outono e, com ele, a rentrée (salvo seja), convém que se tenha à mão um sortido, tão variado quanto possível, dessas frases rotulares (rupturas…) que os vivos gostam de imaginar que vão ter na tampa depois de mortos… Incito, pois, os leitores — à falta de uma* Grande Concurso Nacional de Epitáfios, que a imprensa podia muito bem, e muito a tempo, promover — a demorarem-se na salutar meditação sobre a gravidade e a densidade dessas curtas frases definitivas que nos olham nos olhos e que, afinal, são de vivos que nos falam através dos mortos.
Um, que não foi premeditado, antes produto do acaso objectivo, resume-se na palavra OSTRAS, aposta no vagão selado onde viajou de* Alemanha para a Rússia o cadáver de Tchecov. O supremo ironista não desdenharia uma cottage desta categoria…
Num plano mais vulgar, temos aquele que podia muito bem ser criação nossa, mas que nos chegou do Brasil:
Aqui jaz
Bento Bexiga
Que acendeu um fósforo
Para ver se tinha gasolina
No depósito do seu carro
e… tinha mesmo!
E, requintando agora um pouco, aquela fustigação que a Igreja nos faz constantemente para que nos lembremos que não passamos de um barro vil:
Nós, ossos que aqui estamos,
Pelos vossos esperamos.
Donde Mello e Castro, o mais importante, *não dizer o único, concretista português, podia muito bem tirar um grafismo eloquente:
v’ossos
Sem cair no artificialismo da Antologia de Spoon River, mais jogo de comadres que jogo de epitáfios, acrescento a esta primeira amostragem o célebre:
Aqui jaz
Mark Twain
Que sempre disse que isto havia de acontecer
E termino (por agora…) com o ainda mais célebre epitáfio stendhaliano, que um piedoso amigo romancista acabou por estragar com a mania da literatura:
Arrigo Beyle
milanês
Escreveu. Viveu. Amou.
Viveu, amou, escreveu — era a sequência pensada e escrita por Stendhal, grenoblês que, mesmo depois de morto, queria homenagear a cidade que mais amou: Milão. Porém, o primado da literatura viria, como sempre, deitar tudo a perder…
O’Neill, Alexandre, Luta, 3, Agosto, 1976, in Coração Acordeão, Lisboa: O Independente Global e Assírio & Alvim, 2004

ilustração de André Carrilho para a capa do livro
* transcrito como no original (prováveis erros tipográficos)
• página da D-G LB sobre Alexandre O’Neill
• página de André Carrilho